Já muito tempo passou desde a minha última publicação no blogue. Não que tenha deixado de acreditar na importância da partilha de opiniões, antes pelo contrário, senti um imperativo de reflectir e estudar de forma mais profunda algumas matérias.
Karl Marx foi, para mim, dos filósofos que mais influenciou o estudo da sociedade e do seu funcionamento. Não apenas da capitalista, mas de como os homens se movem. Aquilo a que Karl Popper chama do economismo de Marx, a sua tese de que são as relações de natureza económica entre os humanos que em última instância definem as coordenadas da sua relação em sociedade. Mas, na minha modestíssima opinião, é precisamente aqui que reside um dos seus erros.
Theodor Adorno e Max Horkheimer, na sua obra conjunta "Dialéctica do Esclarecimento" definem o conceito da realidade social como totalidade, isto é, como um conjunto de diferentes factores, materiais e meta físicos. E devemos pegar na sua análise para poder corrigir a teoria marxista.
Uma vez que a atribuição de sentido pertence ao campo subjectivo de cada um, e que esse campo subjectivo, pela unicidade das suas vivências, é único e imprevisível, o impacto desta imprevisibilidade na atribuição de sentido é também ele imprevisível. A vontade de um grupo de indivíduos que se une por uma causa que seja transversal à sua condição social e que una pessoas de diferentes meios económicos pode, por exemplo, superar as relações económicas estabelecidas indirectamente entre si. A História, quando não é lida retroactivamente, está repleta de acontecimentos que surgiram por factores muito mais complexos que a simples vertente económica. As próprias condutas éticas e as diferentes percepções em relação à riqueza material entre as diferentes sociedades ocidentais europeias, e a própria variedade de concepções dentro de cada sociedade, demonstram que a atitude perante a solidariedade, a xenofobia, a família, a pobreza, dependem de muito mais factores que simplesmente a relação económica entre os indivíduos. Olhando para a situação de hoje, devemos, por exemplo, procurar entender os conflitos "Europa do Sul vs Europa do Norte" para além das questões económicas; como também devemos procurar entender os meandros psicológicos e sociológicos que levam a um crescimento do anti-comunismo na Europa de leste sem cair nas mesmas explicações simplistas acerca do impacto da sua economia mais lenta e menos modernizada ou do aparelho de Estado mais ou menos controlado por interesses particulares que não gera a qualidade de vida esperada depois da queda do socialismo.
Se queremos realmente compreender o funcionamento da sociedade devemos ser capazes de incluir no nosso estudo todos os factores de ordem qualitativa que nos influenciam e que nós próprios criamos para dar sentido à realidade. Temos de ser capazes de compreender a complexidade do universo subjectivo de cada indivíduo e a consequente complexidade das relações resultante desta subjectivização.
Concluindo, para sermos capazes de construir a sociedade pós-capitalista, a nova utopia da esquerda, temos de assumir a responsabilidade de sermos os mais críticos de Marx, de Lenine, de todas as experiências falhadas de socialismo real e de todas as abstracções teóricas que levaram a esquerda para o beco sem saída em que se encontra hoje.
Falar de "socialismo" sem antes condenar de vez os crimes cometidos por esse nome e sem assumir o falhanço é o acto mais ridículo e superficial que se pode ter. A esquerda tem de ser corajosa e intelectualmente honesta. Tem de ser capaz de assumir os seus erros e as limitações das interpretações anteriores do que deve ser a sociedade não-capitalista.
Se queremos levar o trabalho de Marx para a frente há que assumir e apontar os seus erros, corrigi-lo e honrar as suas limitações.
terça-feira, 27 de outubro de 2015
domingo, 15 de março de 2015
Uma guerra que não é nossa
Se há equívoco que leva a desentendimentos de forma desnecessária e gratuita, é o equívoco dos falsos opostos.
Falo neste equívoco porque há um tema da atualidade que nos leva constantemente para discussões sem sentido onde se tomam posições automáticas sem reflexão. Falo da questão do ISIS e da intervenção dos E.U.A. no médio oriente. Este é um tema onde, muito mais à direita do que à esquerda, se tende a cometer o erro do "se não estás comigo, estás contra mim."
O sentimento anti-americano que se pode observar na esquerda não pode nunca ser confundido com uma postura pró jihad nem ser tomado como uma posição de desculpabilização dos atos terroristas cometidos por um grupo islamo-fascista. A postura do verdadeiro anti-terrorismo de esquerda obriga à imediata condenação tanto do ISIS como do estado americano. Jamais se pode compactuar com a postura hipócrita e cínica liberal, que criou e alimentou uma tensão política e social de tal forma que agora não tem maneira de o resolver, nem com os atos bárbaros e selvagens de um grupo criminoso por muito ressentimento que o esteja a motivar.
Neste tema, a direita fixa-se na masturbação intelectual do período da Guerra Fria condenando qualquer crítica ao "perfeito" sistema democrático liberal, seguindo religiosamente um Fim da História que nem o próprio Fukuyama ainda acredita. Mas é preciso acabar com esta falsa dualidade. Essa guerra não é nossa. Não no sentido em que não temos que trabalhar para resolver o conflito, mas no sentido em que o trabalho para a resolução passa precisamente pela crítica aberta às duas frentes e aos dois tipos de fanatismo. O pensamento crítico não é um valor americano, nem a liberdade de expressão, muito menos os direitos humanos. Não há países salvadores da humanidade que sintam que podem bater a porta de todos os parlamentos para vender a "democracia". Nem pode haver grupos que se desresponsabilizam da sua condição humana e do seu elo de ligação com o Outro em nome de uma religião.
Não podemos deixar que se caia em discursos mccarthystas nem em visões limitadas das tensões políticas. Porque apesar de acreditar no direito à auto-determinação dos povos, não confio nestes dois estados auto-proclamados.
Falo neste equívoco porque há um tema da atualidade que nos leva constantemente para discussões sem sentido onde se tomam posições automáticas sem reflexão. Falo da questão do ISIS e da intervenção dos E.U.A. no médio oriente. Este é um tema onde, muito mais à direita do que à esquerda, se tende a cometer o erro do "se não estás comigo, estás contra mim."
O sentimento anti-americano que se pode observar na esquerda não pode nunca ser confundido com uma postura pró jihad nem ser tomado como uma posição de desculpabilização dos atos terroristas cometidos por um grupo islamo-fascista. A postura do verdadeiro anti-terrorismo de esquerda obriga à imediata condenação tanto do ISIS como do estado americano. Jamais se pode compactuar com a postura hipócrita e cínica liberal, que criou e alimentou uma tensão política e social de tal forma que agora não tem maneira de o resolver, nem com os atos bárbaros e selvagens de um grupo criminoso por muito ressentimento que o esteja a motivar.
Neste tema, a direita fixa-se na masturbação intelectual do período da Guerra Fria condenando qualquer crítica ao "perfeito" sistema democrático liberal, seguindo religiosamente um Fim da História que nem o próprio Fukuyama ainda acredita. Mas é preciso acabar com esta falsa dualidade. Essa guerra não é nossa. Não no sentido em que não temos que trabalhar para resolver o conflito, mas no sentido em que o trabalho para a resolução passa precisamente pela crítica aberta às duas frentes e aos dois tipos de fanatismo. O pensamento crítico não é um valor americano, nem a liberdade de expressão, muito menos os direitos humanos. Não há países salvadores da humanidade que sintam que podem bater a porta de todos os parlamentos para vender a "democracia". Nem pode haver grupos que se desresponsabilizam da sua condição humana e do seu elo de ligação com o Outro em nome de uma religião.
Não podemos deixar que se caia em discursos mccarthystas nem em visões limitadas das tensões políticas. Porque apesar de acreditar no direito à auto-determinação dos povos, não confio nestes dois estados auto-proclamados.
domingo, 1 de março de 2015
Será possível pensar numa sociedade não repressiva?
Segundo Herbert Marcuse, a sociedade capitalista deu o seu passo fundamental quando o Princípio de Desempenho (o princípio de maximizar o contributo de cada um de acordo com a divisão do trabalho) se tornou no Princípio de Realidade (o sistema ou quadro de valores de referência para uma sociedade). Este Princípio de Desempenho, para funcionar na forma adequada, parte de uma repressão do Princípio de Prazer, presente nos nossos instintos. Esta repressão não afecta o mundo das fantasias, mas interfere com a nossa percepção consciente e inconsciente da realidade e com a nossa construção moral. Desta forma, a repressão dos instintos é um princípio fundamental para o desenvolvimento do Princípio de Desempenho. Este, na sua forma óptima de funcionamento, perpetua a máquina capitalista e cimenta o lugar de poder e influência da classe dominante. Esta repressão surge como a resposta para o funcionamento civilizado da comunidade, sob pena da desagregação do tecido social. Contudo, os instintos só surgem como desagregadores do Princípio de Realidade quando este é o Princípio de Desempenho e porque foram submetidos, desde o nascimento do indivíduo, a uma repressão, originando assim a tensão entre os desejos inconscientes e as exigências da sociedade, a famosa tensão freudiana do id e supereu. Para Freud, esta relação antagónica era perpétua e inerente a qualquer sociedade.
Será então possível construir uma sociedade não repressiva?
A questão deve ser reflectida de forma séria. Foi primeiramente colocada e aprofundada pela Escola de Frankfurt, e há um argumento que me leva a querer colocá-la, pondo em causa a premissa de Freud: a repressão só se dá aquando o nascimento do indivíduo, isto é, só acontece quando este é exposto ao Princípio de Realidade vigente. A tensão não é inerente a qualquer ser humano, é resultado do antagonismo entre o Princípio de Desempenho em si e o Princípio de Prazer, devido à repressão que necessita de aplicar para o funcionamento da sociedade tal como a conhecemos. Assim, abre-se caminho para a discussão sobre a veracidade do carácter inultrapassável da tensão supereu-id e para a discussão sobre a possibilidade (mas não probabilidade) de construção de uma sociedade em que esta tensão foi resolvida.
Dentro da Escola de Frankfurt, há quem defenda esta possibilidade e por isso se afasta de Freud. Mas também há quem rejeite esta ideia, considerando que a premissa de um antagonismo inultrapassável entre o supereu e o id deve ser tomada como verdadeira. A minha posição situa-se entre os dois pólos, tentando conciliar algumas ideias de Erich Fromm (defensor de que uma alteração na estrutura da sociedade poderia originar um alívio da tensão) e Slavoj Zizek (defensor do retorno ao pensamento lacaniano que defende os pressupostos freudianos).
Como?
Tal como já referi no meu outro texto, uma auto-reflexão profunda, que recupere a soberania do indivíduo na construção da sua identidade e da sua rede simbólica, dá o primeiro passo para uma auto-análise dos próprios instintos e repressões sofridas do exterior. Esta capacidade de auto-análise permite a superação de sentimentos de culpa, de desejos insatisfeitos, de complexos de inferioridade causados pela repressão, integrando o inconsciente no consciente, permitindo a reflexão racional e consciente do indivíduo sem descartar as emoções e a estrutura simbólica da nossa realidade. Esta soberania é o que permite fazer o julgamento completo (defendido por Adorno, julgamento que incorpora a Emoção e a Razão) livre de grande parte da repressão exógena.
Por sua vez, é também esta auto-análise que permite uma participação consciencializada em projectos de acção política que procurem anular a repressão. A ausência de repressão só pode ser discutida, como projecto para lá da utopia, quando a própria repressão for totalmente compreendida por cada indivíduo. Retomando os termos marxistas, quando houver uma consciencialização. O que Marx não sabia, nem podia saber na altura, é que hoje a complexidade da alienação não se limita ao desconhecimento dos mecanismos de dominação por parte da classe burguesa. A alienação de hoje passa pela própria aceitação.
O passo para esta consciencialização e subsequente superação da repressão é o passo que temos que dar hoje. Todos e cada um.
Será então possível construir uma sociedade não repressiva?
A questão deve ser reflectida de forma séria. Foi primeiramente colocada e aprofundada pela Escola de Frankfurt, e há um argumento que me leva a querer colocá-la, pondo em causa a premissa de Freud: a repressão só se dá aquando o nascimento do indivíduo, isto é, só acontece quando este é exposto ao Princípio de Realidade vigente. A tensão não é inerente a qualquer ser humano, é resultado do antagonismo entre o Princípio de Desempenho em si e o Princípio de Prazer, devido à repressão que necessita de aplicar para o funcionamento da sociedade tal como a conhecemos. Assim, abre-se caminho para a discussão sobre a veracidade do carácter inultrapassável da tensão supereu-id e para a discussão sobre a possibilidade (mas não probabilidade) de construção de uma sociedade em que esta tensão foi resolvida.
Dentro da Escola de Frankfurt, há quem defenda esta possibilidade e por isso se afasta de Freud. Mas também há quem rejeite esta ideia, considerando que a premissa de um antagonismo inultrapassável entre o supereu e o id deve ser tomada como verdadeira. A minha posição situa-se entre os dois pólos, tentando conciliar algumas ideias de Erich Fromm (defensor de que uma alteração na estrutura da sociedade poderia originar um alívio da tensão) e Slavoj Zizek (defensor do retorno ao pensamento lacaniano que defende os pressupostos freudianos).
Como?
Tal como já referi no meu outro texto, uma auto-reflexão profunda, que recupere a soberania do indivíduo na construção da sua identidade e da sua rede simbólica, dá o primeiro passo para uma auto-análise dos próprios instintos e repressões sofridas do exterior. Esta capacidade de auto-análise permite a superação de sentimentos de culpa, de desejos insatisfeitos, de complexos de inferioridade causados pela repressão, integrando o inconsciente no consciente, permitindo a reflexão racional e consciente do indivíduo sem descartar as emoções e a estrutura simbólica da nossa realidade. Esta soberania é o que permite fazer o julgamento completo (defendido por Adorno, julgamento que incorpora a Emoção e a Razão) livre de grande parte da repressão exógena.
Por sua vez, é também esta auto-análise que permite uma participação consciencializada em projectos de acção política que procurem anular a repressão. A ausência de repressão só pode ser discutida, como projecto para lá da utopia, quando a própria repressão for totalmente compreendida por cada indivíduo. Retomando os termos marxistas, quando houver uma consciencialização. O que Marx não sabia, nem podia saber na altura, é que hoje a complexidade da alienação não se limita ao desconhecimento dos mecanismos de dominação por parte da classe burguesa. A alienação de hoje passa pela própria aceitação.
O passo para esta consciencialização e subsequente superação da repressão é o passo que temos que dar hoje. Todos e cada um.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Uma ingénua reflexão sobre o pós-capitalismo
O sistema capitalista infiltrou-se em inúmeras esferas do ser humano. Interfere de forma destrutiva mas ao mesmo tempo perpetuadora do próprio sistema. Esta interferência é, muitas vezes, mais visível no campo Simbólico, penetrando no nosso inconsciente e deformando a nossa percepção das coisas, do Outro, de nós próprios, da realidade. A profundidade e o alcance destas interferências é tal que na nossa concepção do fim do mundo ou do fim da própria vida, atribuímos primazia à ideologia. É tal a interferência, e de tal modo destrutiva, que o uso da Razão está também ele minado pelos pressupostos e valores capitalistas, reduzindo, a priori, o alcance do nosso raciocínio e a sua complexidade. A influência negativa da lógica de acumulação, tanto para o universal como para o particular, é algo já muito falado e estudado.
A pergunta é, recordando o velho Lenin, "o que fazer?". Para responder-mos a esta questão precisamos:
1) Analisar criticamente as tentativas falhadas de superação do capitalismo;
2) Formular novas perguntas adaptadas ao nosso contexto histórico-social repensando a sociedade à luz dos teóricos do passado.
Estas são as duas grandes sugestões de Slavoj Zizek, mas uma vez dados estes dois passos, temos que nos atrever a iniciar o processo de superação do capitalismo. Esse processo divide-se em três grandes esferas (individual, local e global) e deve começar exactamente onde a interferência ideológica é mais profunda: no campo Simbólico.
Mas como?
Na minha humilde condição de estudante, arrisco-me a propor uma "destruição metafísica" das relações de poder feitas através do dinheiro/capital. Esta "destruição", no plano local, deve ser levada a cabo por um número considerável de membros da comunidade, exigindo um mínimo de compromisso, concentrando-se em criar estratégias de não reconhecimento dos mercados capitalistas recorrendo a formas alternativas de troca. No campo global, deve-se fazer frente às grandes instituições financeiras através da cooperação entre estados e da criação de redes alternativas que não respondam perante os gigantes tradicionais. É arriscado, mas aqui devemos seguir Napoleão "On s'engage et puis on voit".
No campo individual, a "destruição" deve seguir as velhas orientações de Marx: auto-reflexão e a recuperação da soberania na atribuição de sentido aos nossos objectos de desejo e na construção da nossa identidade. Este passo na esfera individual é o que permite a participação activa e eficaz nos compromissos de acção colectiva. Sem esta auto-reflexão, a participação torna-se cega. Isto é, a impermeabilidade do sujeito perante uma possível deslocação da sua identidade para a Causa em si, a total entrega ao Grande Outro, fica muito reduzida.
Assim, existe uma relação de profunda e complexa dependência entre estas três esferas. E, seguindo a tríade lacaniana, existe também uma relação de interligação entre o Simbólico, o Imaginário e o Real, modificando-se e afectando-se entre si. Desta forma, uma revolução no Simbólico, obrigatoriamente inicia uma revolução no Real e no Imaginário.
É com esta "destruição metafísica" que se torna possível libertar da prisão ideológica que vivemos. Sem ela, os nossos instintos e vontades inconscientes continuarão a seguir o quadro de valores capitalistas.
É preciso sair da alienação, tomar consciência, compreender a ideologia e a repressão. É preciso recuperar a consciência do nosso poder, da nossa autonomia, da nossa liberdade e, em última instância, de nós próprios.
A pergunta é, recordando o velho Lenin, "o que fazer?". Para responder-mos a esta questão precisamos:
1) Analisar criticamente as tentativas falhadas de superação do capitalismo;
2) Formular novas perguntas adaptadas ao nosso contexto histórico-social repensando a sociedade à luz dos teóricos do passado.
Estas são as duas grandes sugestões de Slavoj Zizek, mas uma vez dados estes dois passos, temos que nos atrever a iniciar o processo de superação do capitalismo. Esse processo divide-se em três grandes esferas (individual, local e global) e deve começar exactamente onde a interferência ideológica é mais profunda: no campo Simbólico.
Mas como?
Na minha humilde condição de estudante, arrisco-me a propor uma "destruição metafísica" das relações de poder feitas através do dinheiro/capital. Esta "destruição", no plano local, deve ser levada a cabo por um número considerável de membros da comunidade, exigindo um mínimo de compromisso, concentrando-se em criar estratégias de não reconhecimento dos mercados capitalistas recorrendo a formas alternativas de troca. No campo global, deve-se fazer frente às grandes instituições financeiras através da cooperação entre estados e da criação de redes alternativas que não respondam perante os gigantes tradicionais. É arriscado, mas aqui devemos seguir Napoleão "On s'engage et puis on voit".
No campo individual, a "destruição" deve seguir as velhas orientações de Marx: auto-reflexão e a recuperação da soberania na atribuição de sentido aos nossos objectos de desejo e na construção da nossa identidade. Este passo na esfera individual é o que permite a participação activa e eficaz nos compromissos de acção colectiva. Sem esta auto-reflexão, a participação torna-se cega. Isto é, a impermeabilidade do sujeito perante uma possível deslocação da sua identidade para a Causa em si, a total entrega ao Grande Outro, fica muito reduzida.
Assim, existe uma relação de profunda e complexa dependência entre estas três esferas. E, seguindo a tríade lacaniana, existe também uma relação de interligação entre o Simbólico, o Imaginário e o Real, modificando-se e afectando-se entre si. Desta forma, uma revolução no Simbólico, obrigatoriamente inicia uma revolução no Real e no Imaginário.
É com esta "destruição metafísica" que se torna possível libertar da prisão ideológica que vivemos. Sem ela, os nossos instintos e vontades inconscientes continuarão a seguir o quadro de valores capitalistas.
É preciso sair da alienação, tomar consciência, compreender a ideologia e a repressão. É preciso recuperar a consciência do nosso poder, da nossa autonomia, da nossa liberdade e, em última instância, de nós próprios.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
Sobre Esperanças e Sectarismos
A vitória do Syriza
é uma vitória de todos os que se opõe à Europa do século XXI. De todos os que
se opõem à austeridade. De todos os que põe as pessoas à frente do capital.
Talvez não satisfaça os puristas, talvez não venha a ser o que parece, talvez
haja incongruências; mas não há nada que lhes agrade, não há nada que venha a
ser o que se planeou, não há nada que seja coerente em absoluto. Sou obrigado a
subscrever o Zizek quando afirma que o Syriza foi a esquerda que teve a coragem
de largar o conforto do confronto marginal para arriscar tomar o poder. Pode
ser um conforto com objectivos mais “complexos”, mas é um conforto. Sem
conotação positiva ou negativa, apenas como facto.
Sou da opinião de
que há soluções diferentes para o mesmo problema, e apoio as várias tentativas.
A tomada do poder mantendo a mesma matriz institucional seguramente não me
parece a melhor estratégia a longo prazo, mas 300 000 gregos têm agora acesso
aos serviços mínimos que antes não podiam pagar. O funcionário do Pingo Doce grego
ganha agora quase mais 200€ que antes. Se no longo prazo esta pode não ser a
melhor estratégia, no curto prazo é uma vitória inigualável na Grécia. Pelo
menos para aqueles que lá vivem.
Para além disso,
abrem-se mais portas. A esquerda radical está a conseguir recuperar espaço
político na Europa. Acima de tudo está a conseguir, lentamente, equiparar o seu
crescimento ao da extrema-direita, o grande perigo que enfrentamos agora. O timming também é o certo, a menos de um
ano das legislativas espanholas, a vitória do Syriza pode ser a garantia do
Podemos, e pode ser o apoio de um possível Costa na Europa ou, num cenário
ambicioso, o impulso que falta ao Die Linke ou ao BE. Não falamos de paraísos,
mas de uma europa menos infernal. É nesse sentido que estas são,
incontornavelmente, vitórias.
Falamos de partidos
populistas? Sim. Mais uma vez, a via do populismo de esquerda não me parece a
mais bela, mas se for esse o meio para melhorar francamente a vida de uns
milhões de pessoas, que seja.
Não são as vias e
soluções que mais apoio ou nas quais deposito mais esperança, mas julgá-las sem
lhes conceder crédito é simplesmente triste. Entristecem-me aqueles que não
conseguem mais que tecer críticas sem conceder créditos, aqueles que não
conseguem conceber mais do que duas cores, que não percebem que o mundo não é
preto no branco e que é precisamente nas tonalidades que reside o valor das
coisas.
Prefiro o branco,
mas na impossibilidade de o obter, prefiro que o cinzento seja claro.
Agora, resta-nos
esperar. No meu caso, espero que o Syriza consiga ser bem sucedido naquilo a
que se propõe, aos sectários de esquerda que lhes desejam mal, precisamente por
o fazerem estão um passo mais longe de serem bem sucedidos nas suas próprias
lutas.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
Ideias locais para soluções globais
O capitalismo leva
agora mais de um século de desenvolvimento. Está integrado em todos os sectores
da sociedade. Ao contrário do que se passava antes, a lógica quantitativa do
mercado está presente em todos os espaços que por excelência se distanciavam dessa
lógica. Das artes ao tempo livre, da casa ao café, da cultura à tecnologia. É
cada vez mais difícil distanciarmo-nos da lógica mercantilista em vigor.
Rejeitá-la apresenta-se uma tarefa heroica.
Já não há, pelo
menos na Europa, uma esquerda forte. Não há uma cultura revolucionaria num
sector representativo de nenhuma sociedade europeia. Não existe esquerda
radical que não seja meramente circunstancial, o Syriza e o Podemos são
esquerdas radicais, de dimensões significativas, mas tão passageiras como o
Bloco de Esquerda o é. Os objectivos originais de todas as esquerdas foram-se
dissolvendo em exigências temporárias. A procura da cura transformou-se em
administração de medicamentos. Não consigo conceber, nesta década ou nas
próximas, uma solução europeia. Muito menos uma solução mundial. Infelizmente,
essas soluções são “coisa do passado”.
São escassos aqueles
que publicamente se assumem como anti-capitalistas, pelo menos na esfera
pública, o próprio termo cai cada vez mais em desuso por calculismo político
mal calculado.
Coloco-me então a
questão: não passará a solução pelo inverso? Soluções locais e autónomas que
tenham o potencial de expansão? Que sejam o laboratório de experiências
políticas, quer de organização social como de pensamento livre, de novas formas
de governo e antigos métodos de autogestão.
Comunidades
excedentárias que possam usar excedentes para combater défices. Não há emprego
ou desemprego numa comunidade, há tarefas, infinitas. Umas necessárias outras
acessórias. Não há forma de uma comunidade ser auto-suficiente e ter variedade
nos produtos que dispõe. Nem creio que seja desejável uma comunidade que se
deseje excluir em absoluto de tudo o que o capitalismo trouxe com ele. Mas é
possível que disfrute sem excesso do que de bom há no “desenvolvimento”
recorrendo aos excedentes como meio de financiamento.
Estas comunidades,
no entanto, têm que deixar de ser exclusivas daqueles que se marginalizam para
serem escolha daqueles que se afirmam. Têm que ser escolhidos não só por nós, mas
pelas figuras públicas deste mundo, da política à cultura. Parece-me,
infelizmente, que para ganharem a dimensão de “alternativa” têm que ser legitimadas
desta forma.
Têm que se tornar
espaços de criação artística e intelectual. Espaços onde a labora e o trabalho
são duas coisas diferentes, a primeira necessária e limitada pela necessidade,
o segundo como uma escolha, ilimitada pela vontade. O que as cidades foram
noutros tempos, pode agora ser o campo.
O efeito
multiplicador aplicar-se-ia na perfeição a este meio, que no espaço de gerações
poderá vir a constituir a melhor e mais desenvolvida alternativa ao
capitalismo. A multiplicação de comunidades deste género, acompanhada de perto
pelo desenvolvimento tecnológico criará condições para que este estilo de vida,
inicialmente ligado ao mercado por necessidade dele se separe por
possibilidade.
Que outra solução é
tão exequível e real? Que outra solução pode ser tão global senão uma local? Só
este formato permite a diversidade necessária para uma escala mundial. Só assim
quem se governa vive contente com o seu governo, porque é seu, não apenas
escolhido por si. Para além da diversidade de novos sistemas que
necessariamente surgirá, a globalização permite igualmente a partilha destes, que
não sendo mais marginais se podem rapidamente tornar originais alternativas.
É a única
alternativa real em que consigo
pensar. Seguramente existem outras, e esta sem dúvida desencadeará outras
tantas, seguramente melhores. Mas como primeiro passo, parece-me o passo mais acertado.
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
A crise de identidade da esquerda
Há uns dias Manuel Valls defendeu retirar-se a palavra “socialista”
do nome do Partido Socialista Francês. É compreensível e eu apoio. A hipocrisia
já começa a ser demasiada.
Há semanas coloquei aqui um texto sobre o sectarismo da
esquerda, sobre a prisão que a nossa esquerda vive às utopias do passado. Hoje,
mais do que nunca, reforço essa minha posição. Não se fazem as perguntas
certas, e a pergunta mais crucial de todas ainda está por responder: o que é
ser de esquerda hoje?
Chega de pensar em revoluções à moda do séc. XX, de tentar
reatar chamas que já nem acesas estão. Os problemas da sociedade de hoje são
diferentes, muito mais complexos psicologicamente, muito mais difíceis de
resolver. Não só pela complexidade do tecido existencial que os constitui, mas
porque a mudança já não se resume ao nosso quintal e estende-se pelo bairro
inteiro.
O Estado Social escandinavo é bom (segundo o meu próprio
conceito de bom, que engloba questões como a intervenção do estado na proteção
dos desfavorecidos, liberdade de expressão, fomento à educação, etc). No curto
prazo, deve ser essa a referência para os combates a fazer. Mas infelizmente não
chega. É preciso algo de mais radical mas ao mesmo tempo mais gradual e global.
E quando digo radical, digo romper com os mitos bernsteiniano e soviético.
É preciso acabar com a hipocrisia que senhores como Valls
personificam. Ser de esquerda é querer realmente progredir. E esse crescimento
começa na própria autocrítica, na autoanálise. Começa por sermos francos
connosco e aceitarmos o falhanço da esquerda tradicional. Seja por se ter
desviado ideologicamente para o neoliberalismo e com isso ter perdido a personalidade, seja por ter ficado agarrada aquilo que fazia sentido no passado
e que hoje toma forma num discurso descontextualizado e desligado da realidade,
seja até, em último caso, por não assumir as responsabilidades criminosas dos
regimes autoritários que criou e apoiou.
Por isso é que digo que está na altura de alargar o debate,
de nos questionarmos e não termos medo de participar. A esquerda tem de ter
coragem para participar no poder e com isso dar os primeiros passos para a transformação
mas tem também de se questionar, tem de refletir e estudar, para quando chegar
o momento do passo derradeiro, saber que tipo de sociedade pós-capitalista quer.
Chega de reviver o passado.
Não chega reclamar pelas conquistas socioeconómicas do consenso do pós guerra ou insistir no mito comunista ortodoxo. A esquerda perdeu-se
exatamente porque não soube debater sobre si mesma e compreender as
transformações da sociedade, perdendo a pouco e pouco a sua identidade e o seu
carácter progressista.
Chega de sectarismos à Estaline mas chega também dos Valls
deste mundo. É preciso (re) ler o Marx, pensar pela nossa cabeça e construir a
nova esquerda.
(Porque desde 1789 que aprendemos que a guilhotina nada
resolve.)
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