domingo, 17 de abril de 2016

Que loucura nos espera?

“Houve pessoas que julgaram que um rei podia fazer chover; nós dizemos que isso contradiz toda a experiência.
Hoje Julga-se que avião, rádio, etc. são meios de aproximação de povos e difusão de cultura.”
Ludwig Wittgenstein, 1949

  Aconteceu ter passado as últimas duas semanas em casa e, como tal, ter passado mais tempo no facebook do que havia feito nos últimos anos. Este excesso de tempo passado na rede social deu-me que pensar. Não planeio falar dos problemas mais convencionais – propriedade intelectual do conteúdo que colocamos nestes sites, a idade com que as pessoas os começam a utilizar, os problemas no trabalho que foram surgindo ao longo dos últimos anos, ou fenómenos como o cyberbullying. Interessa-me abordar outro lado da questão: já todos estivemos num café com amigos e, a certa altura, damos conta de que todos estamos no telemóvel, com grande probabilidade, numa rede social. Que fenómeno é este, que se vai tornando cada vez mais comum?
  Quando criamos e enriquecemos um perfil, projectamos uma imagem nossa num espaço virtual, de certa forma com a esperança (aqui, a frase “a esperança é a trela da submissão”, de Raoul Vanhaigen, aplica-se na perfeição) de que a rede a projecte de volta no real. Essa imagem transforma-se numa personagem na qual projectamos, premeditadamente, o melhor de nós – as nossas melhores fotografias, os nossos requintes, as nossas virtudes. O facebook é o mundo em que toda a gente é “bela”, o mais próximo da “perfeição” que consegue criar sobre si; ao desenvolvermos os nosso perfis, esperamos que essa “perfeição” regresse ao real, inviolada.
  O que nos vamos apercebendo é que não é essa imagem que regressa, mas o virtual em si que se intromete no real. No café, nas reuniões, nas conferências, nos parques, em todos os espaços de socialização, parece que a rede social vai lentamente substituindo o real social. Mais grave, parece-me, é a causa desse fenómeno: naqueles momentos antes de dormir, ao acordar, na pausa do estudo ou do trabalho, até quando vamos à casa-de-banho, que sempre foram espaços destinados ao convívio com nós próprios, passamo-los agora em rede. Que consequências terá essa substituição para o nosso auto-conhecimento, auto-estima, capacidade de lidarmos com os nossos problemas? Todas estas necessidades individuais passam a ser mediadas através de um ecrã. Torna-se mais evidente quando constatamos que em momentos de infelicidade ou tristeza o facebook se torna, na sua qualidade terapêutica, mais tentador.
  Com o tempo, também a forma de nos relacionarmos se altera. Se inicialmente a lógica do facebook era quase binária – “amigo”, ou não; gosto (ou não); partilho (ou não) – entrámos agora numa fase em que a própria plataforma se complexifica. Face a um post, a rede diz-nos que há seis tipos de reacções que podemos expressar: gostar, amar, rir, ficar impressionado, triste ou irritado. Numa conversa, surge um círculo que indica que a outra pessoa viu o que escrevemos, ao jeito de “a bola agora está do teu lado”. Com estes pequenos detalhes, a rede vai desenhado uma matriz de relacionamento. A sua matriz, que nos é imposta. Da mesma forma que nos relacionamos através dela, também a sua matriz se vai lentamente, creio, projectando em nós e influenciando a forma como comunicamos. A tentativa de recriar e agrupar em pequenos símbolos emoções tão complexas quanto as humanas é, no mínimo, perversa. Corresponde à ideologia do nosso tempo, a da substituição do qualitativo pelo quantitativo – embora hajam seis emoções possíveis a um post, logo são reagrupadas num número único de reacções, indiscriminadas na sua qualidade. Trata-se do fenómeno do hashtag ou dos vines – quanto vazio se consegue comprimir numa palavra, ou quanto nada se consegue expressar num vídeo de 6 segundos. Reduzimos o léxico, porque o pensamento está ele próprio mais reduzido. Também a solidez das nossas relações se vai reduzindo. Assim como o facto de quase todos usarmos as mesmas redes (aqui ou no Peru, com vinte ou cinquenta anos, exercendo a função de presidente da república ou agricultor) da mesma forma, fará apenas com que fiquemos mais iguais. Assustadoramente iguais.
  Até as nossas funções mais elementares, como a memória, são veiculadas pela rede – as nossas memórias visuais são, cada vez mais, as memórias que as fotografias das nossas redes contém.
  Por outro lado, os recentes atentados abriram um precedente perigoso – o facebook tenta, agora, tornar-se útil à organização social com a função “marcado seguro”. É uma função útil, e neste século tecnológico as soluções vão ser, cada vez mais, soluções em rede; mas temos que nos questionar – que perigo representa esta disponibilidade das redes sociais de se tornarem úteis, ou diria tendencialmente necessárias, à sociedade? Desejamos a presença, cada vez mais forte, de uma empresa cujas práticas no que toca à privacidade e propriedade intelectual são, no mínimo, duvidosas? Queremos que uma corporação, na qual não temos qualquer intervenção no processo de tomada de decisões, assuma um papel tendencialmente essencial à nossa vida?
  Estas redes gozam de uma vantagem muito clara – representam a tecnologia, o progresso, e o progresso não se questiona, aceita-se. Uso estas redes, como quase toda a gente, e insiro-me na maioria dos fenómenos que descrevi acima, mas não será altura de colocar questões sérias sobre as redes sociais e o efeito que têm na nossa mente, nas nossas relações, na nossa realidade?

  Em 2008 o facebook atingiu os 100 milhões de utilizadores; em 2014 metade da população portuguesa usava já um smartphone. Este aparelho é o mecanismo de alienação mais forte que alguma vez foi criado. Tratam-se de fenómenos recentes, mas é caso para dizer: que será feito das gerações que crescem, aprendem e se relacionam através destas plataformas? Se em menos de uma décadas chegamos a este ponto, onde estaremos, se não pusermos um travão a toda esta loucura, daqui a vinte anos? Que loucura nos espera?

3 comentários:

  1. Muito oportuno, e seria interessante dar continuidade, talvez pela possivel formatação que é feita por essa via.
    Talvez vos espere a loucura que deixarem que vos seja aplicada, por vezes pelos proprios, mais as que criarem.
    Esses aparelhos tambem são um espelho, ou não serão, a vaidade e o narcicismo, caracteristicas de fermentação rápida, numa vida assente no consumismo estético, e que é por aí que uma boa parte escorrega.

    um abraço e obrigado pelo texto

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