segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O Político ou o político?

O que é um político? Fiz esta pergunta a muitos camaradas, amigos, familiares e em todas as respostas notei um sentimento inevitável de tristeza, desilusão. Felizmente cada um tinha a sua própria interpretação do que é ser um político, mas todos partilhavam a frustração de já não existirem Políticos.
Para mim, um Político é alguém que quer participar na construção/manutenção da sociedade. É alguém que se sente obrigado a representar os seus pares, o seu povo. É alguém que considera que o seu maior contributo para a sociedade é trabalhando na organização da mesma. Vemos muito poucos desses Políticos. Mas vemos muitos políticos. Vemos muitos homens e mulheres capazes de sacrificar o esforço dos outros pelo seu interesse próprio. Vemos muitos homens e mulheres abusarem do seu poder única e exclusivamente para melhorarem a sua condição económica, mesmo que isso seja à custa de todos os que votaram neles. Vemos muitos homens e mulheres deturparem o sentido da sua posição, levando-nos a uma descredibilização perigosa do sistema da democracia representativa.
Tal como as pessoas com quem falei, pelo nosso país afora encontramos cidadãos desiludidos com os políticos, e com toda a razão. A abstenção fala por si e mostra-nos que os portugueses acreditam cada vez menos na capacidade dos políticos se tornarem Políticos e representarem honestamente e com seriedade quem neles depositou confiança.

Está na altura de exigirmos políticos mais sérios e que compreendam o sentido do seu papel, de nos tornarmos também mais ativos politicamente. A política é algo demasiado sério, tem que se ter Políticos.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O perigo do consenso

Após algum tempo sem escrever nada para o 1848, venho dar-vos aqui a minha opinião sobre um dos fenómenos que eu considero mais perigosos do nosso tempo.
John Stuart Mill defendia que a diferença de opiniões e o debate fundamentado que dela ocorria, quando era devidamente fundamentado, proporcionava aos participantes da discussão as várias visões da questão a ser discutida; que só se podia chegar à “verdade” após ter conhecimento das várias versões.
Já Friedrich Nietzsche tinha uma abordagem mais individualista, considerando que só o próprio deveria delimitar os seus limites, ultrapassando a moral e, por consequência, criar as suas verdades. No entanto estas verdades eram apenas aplicáveis a si próprio. O crescimento e a evolução residiam na capacidade de criar algo novo e só nosso.
Tanto em Mill como em Nietzsche, está expresso o ideal de um indivíduo capaz de criar a sua visão do mundo. Mesmo que difiram no meio para chegar a essa soberania, ambos consideram que acima de tudo devemos construir a nossa visão das coisas.
Recentemente, várias vezes, demais até, ouvimos os nossos políticos apelar ao consenso, com o intuito de transformar o debate público sobre a nossa política numa coisa supérflua comparada com as nossas grandes responsabilidades para com os credores ou com as instituições do mundo financeiro. Ora, é este tipo de consenso que eu reprovo.
A minha reprovação proveniente deste tipo de discurso reside exatamente no ponto convergente de Mill e de Nietzsche: Quando apelamos à submissão do debate político e da visão política de cada um a uma agenda ideológica, estamos não só a diminuir a riqueza do mesmo mas como estamos a impor uma “verdade absoluta” ou uma visão da vida aos outros. Estamos a atacar a democracia, estamos a reduzir a força da liberdade de opinião e estamos a propagandear a tirania intelectual (sendo o caso mais descarado o da Economia, manipulando as matérias lecionadas nas faculdades públicas com o intuito de reproduzir somente aquilo que é a ideologia política do governo).
Desta forma, lesa-se não só a riqueza do debate político e o seu papel de promover as diferenças intelectuais, como cortamos as possibilidades de cada um se afirmar pela sua visão do mundo e da vida, de cada um ter espaço para agir de acordo com os seus valores e princípios e de cada um poder criar algo de novo na vida política.

Estamos não só a empastelar o sistema político como estamos a cortar as raízes da riqueza da democracia. Ninguém quer 5 partidos a defender a mesma agenda, nem uma sociedade amorfa que não discute nada porque a dívida fala mais alto. Temos que combater este tipo de discurso. Temos de ser capazes de o por em causa, de apontar as suas falhas. Porque só desta forma conseguimos fazer ver a quem o defende que todos ganham mais com o debate e com a discussão.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

A febre da partilha

Hoje decidi escrever este parágrafo apenas para exprimir a minha repulsa com o tipo de informação que vejo a ser anunciada e partilhada pelos membros desta sociedade. Nós, os indivíduos que habitam o presente, somos privilegiados e dispomos de inúmeras formas de obter e partilhar informação mas, no entanto, cada vez que me ligo a este mundo virtual, seja através de redes sociais ou em supostos sites de informação deparo-me com informação inócua e irrelevante… Sempre fui da opinião que a partilha de informação é uma das nossas maiores armas para combater a ignorância e continuo a ser um crente nessa fé cega. Chamo-lhe cega pois não acredito agora que esta comunidade global se estimule num sentido que eu considere positivo, que de certa forma esta partilha de informação tem vindo a promover a ignorância e o tipo de informação que se partilha é escolhida de forma a diminuir a capacidade crítica do ser humano. Assim, desviando o intelecto humano de acções relevantes para o seu melhoramento e ocupando-o com temas que têm tanto de fútil como de desinteressante conseguem criar um batalhão de soldados do vazio. Sem saberem, fazem parte da infantaria, ou carne para canhão, ao serviço da sociedade de consumo.  A maioria dos utilizadores destas redes sociais, que beneficiam destas plataformas e podem assim partilhar informação com (quase) o mundo inteiro, fazem parte da chamada classe privilegiada, que dispõe de um tecto, uma cama, comida e ah, claro... de um computador com ligação à internet. Desta forma, estas plataformas de partilha são ocupadas pelos estímulos ao consumo. A nova onda de partilhas de fotografias do almoço, da vista de um café num miradouro ou da nova discoteca da moda veio infectar as mentes dos observadores das mesmas com a falsa necessidade de comer “aquela” refeição “naquele” restaurante ou de ir beber um copo “naquele” miradouro. Esta moda não apareceu de forma espontânea, foi pensada, desenvolvida e posta depois em prática pelas grandes cabeças de marketing desta nossa sociedade. Sei que enquanto utilizador destas redes sociais (tanto eu como qualquer outra pessoa) não passo de um mero peão no jogo deles mas se de alguma forma eu conseguir chegar à outra ponta do tabuleiro talvez tenha uma hipótese de tentar uma jogada surpresa, a da informação relevante! Claro que posso ser apelidado de controlador ou podem até apontar o óbvio, que a informação tem relevância e valores diferentes para todos nós, que hoje em dia temos a liberdade de expressão para dizer o que entendermos, da forma que quisermos mas, por favor, peço uma coisa apenas, valorizem o facto de a terem. Não a banalizem. Talvez tenha escrito isto porque estou farto de ver actualizações sobre o itinerário gastronómico de algumas pessoas e de saber a opinião de outras sobre o programa de ontem e até posso estar a ser injusto mas muitos escolhem usar esta liberdade para partilhar o conjunto novo que compraram e eu escolho usá-la para dizer a essas pessoas: NÃO ME INTERESSA. 

domingo, 1 de junho de 2014

O perigo do vazio

"The only thing necessary for the triumph of evil is for good men to do nothing"
Edmund Burke

Nestas eleições no dia 25 o que mais me preocupou não foi o avanço da direita radical e nacionalista, mas sim, a ausência de ideologia e o vazio das propostas dos Socialistas e Social-Democratas.

Estamos a viver uma era onde, devido ao golpe de estado de Maastricht, o avanço em políticas sociais é muito reduzido e dificultado A cada dia que passa, vemos as conquistas do pós-guerra desvanecerem-se algures pelos mercados. Vemos a xenofobia pelos países do sul ser fomentada não só por nacionalistas mas também por elementos de partidos do Partido Popular Europeu. Temos a confirmação da perda total de solidariedade quando a Fuhrer Merkel afirma que “a União Europeia não é uma união social”.

E o pior de tudo isto não é a afirmação do racismo ou da insensibilidade social, mas sim a ausência de uma oposição de esquerda, forte e democrática. O pesadelo iniciado por Tony Blair revelou-se muito mais que um pesadelo: foi o começo de um suicídio de identidade política.
Perante um cenário tão negativo e depois de anos de austeridade a destruírem a Europa, esperava-se que a Social-Democracia aparecesse a defender os valores do Estado Social, da solidariedade e da proteção dos desfavorecidos. Mas não. Em vez disso esvazia-se como um balão em discursos cinzentos e governos “à Hollande”. Não é capaz de se olhar ao espelho e refletir sobre si mesma. Com um vazio ideológico tão grande à esquerda, repleto de partidos incapazes de capitalizar o descontentamento das políticas neoliberais, as massas aderem a quem põe o dedo na ferida. Já todos o devíamos saber há muito tempo.

Seja, por isso, altura dos seguidores de Bernstein o lerem no original.

     

quarta-feira, 14 de maio de 2014

A construção da Liberdade para a autorrealização

A liberdade é um conceito muito complexo e não o irei discutir no seu todo. Quero apenas abordar uma das suas vertentes: a liberdade para atingirmos os nossos objetivos.

Qualquer ser humano nasce com interesses, sonhos, desejos mais ou menos realizáveis. Todos nós em pequenos “queríamos ser alguma coisa quando fossemos grandes” e muitas vezes imaginávamos como seria ser isto ou aquilo, algumas vezes até interpretando os nossos futuros “eus” em brincadeiras teatrais. Mas estes nossos desejos ao longo do tempo vão-se modificando, amadurecendo ou até mudando radicalmente. Com o passar do tempo e com o nosso caminho pela escola, vamos começando a equacionar hipóteses mais “realistas”, muitas vezes mais de acordo com as expectativas criadas em nosso redor. Mas também com o passar do tempo vamos percebendo que o nosso acesso a muitas dessas “profissões” está bloqueado. E muitas vezes, as razões para não podermos seguir os nossos sonhos são económicas.
Desta forma, podemos ver que, apesar de vivermos numa sociedade livre e democrática, muitos alunos não têm as condições económicas para poderem prosseguir os seus objetivos de realização pessoal. A liberdade de prosseguir os estudos está por isso limitada a alguns com certas posses económicas, não sendo uma verdadeira liberdade ao acesso de todos. A liberdade para podermos seguir os nossos objetivos tem por isso de ser construída, apoiada. Têm de ser garantidas a todos os indivíduos as mesmas oportunidades de aprendizagem, de crescimento e de realização pessoal, tendo o estado um papel essencial no garante de apoios para os alunos que pelos seus meios não têm capacidade para poder seguir os seus estudos. Desta forma, é fundamental construir os meios para todos poderem ter a mesma liberdade de se autorrealizarem.


A liberdade para alguém se autorrealizar tem por isso de ser construída, já que todos têm o mesmo direito a serem os grandes que queriam ser em pequenos.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Que nomes são estes?

Desde muito novo que a análise dos partidos políticos me interessa bastante. Sempre gostei de perceber a razão de se chamarem como chamam, os motivos que levaram à escolha de determinadas cores e até compreender a tradução prática daquilo que os seus nomes evocavam.
Rapidamente percebi que a ignorância, a mediocridade e os “lobistas”, do pouco que restava dessas tradições linguísticas, transformou estas siglas em meras siglas, ideologias em grupos de amigos e as cores não ultrapassavam a leve importância de fácil identificação.
Chegar a esta conclusão fez-me ficar triste mas também curioso.
Comecei por estudar o significado de Social-Democracia. Li Lenine e vi que era esse o nome da corrente política que mais tarde se organizou no Partido Comunista; estudei Palme e percebi a adaptação dos valores socialistas a uma sociedade capitalista democrática e o seu papel na educação e nas escolas; atentei aos registos do trabalho de Bruno Kreisky e compreendi finalmente o que significava ser Social-Democrata  relativamente  no apoio à investigação científica.
Até que olhei para Portugal…
Em Portugal qual seria o partido Social-Democrata? O que ostenta esse nome com toda a arrogância típica da pobreza intelectual dos políticos do séc. XXI? Ou o que se esconde atrás de uma “rosa” para tentar agradar a todos e proteger o seu núcleo?
“Então porque envergam os partidos estes nomes? Será que no passado eram coerentes entre a sua agenda política prática e a que ostentavam?” Pensava eu…
Pois bem, aí dei asas à minha veia historiadora e quis saber se os fundadores destes partidos eram verdadeiramente social-democratas. Estudei, li e fiz os possíveis por exercitar a minha mente numa viagem temporal até aos discursos de Mário Soares ou Francisco Sá Carneiro e encontrei neles uma riqueza intelectual que não se encontra hoje em nenhum dos seus partidos, mas não encontrei Social-Democracia. Não encontrei ideias para a construção de uma democracia preocupada em defender o Estado Social, em transpor os valores socialistas para a economia de mercado. Vi antes o oportunismo, o “lugar ao sol”, o marfim, o ódio aos comunistas e a proteção dos poderosos.
Aí compreendi que Portugal, apesar de ter socialistas e social-democratas, não tem nem nunca teve uma verdadeira Social-Democracia. Contente-mo-nos com comentadores da esquerda caviar? Com socialistas racistas? Com homens SEGUROS da sua pobreza intelectual e humana e prontos para fazer dela a arma bestial contra a democracia honesta e a Esquerda democrática? Com neoliberais que nunca leram Hayek ou Friedman e que se investem de austeridade como se nada fosse? Contente-mo-nos com uma “social-democracia” de laranja podre, com o seu conceito enxovalhado por uma corja de “meninós” que leram ontem o Diário Económico pela primeira vez?
Eu não me contento e, como cidadão, exijo que esses “social-democratas” dispam esse fato que não é deles, que vistam o fato-macaco do self-made man que, hoje, graças à diminuição da intromissão do seu governo chato e maçador, subiu na carreira e hoje serve às mesas.

Vão ler, vão estudar, vão ser empreendedores, mas não se digam o que não são.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Sem título: o tempo que passo no facebook não me permite pensar nisso

Sento-me para escrever sobre as declarações da Isabel Jonet e tenho dificuldades em começar. O asco que tal figura me causa tolhe-me o espírito. 
Não sou capaz de reagir com a seriedade científica com que vi alguns comentarem a triste verborreia. Dizem que Isabel Jonet não tem razão porque a grande maioria das oportunidades de emprego estão em fóruns online. Não contesto que tenham razão, não desconsidero o seu contributo para a discussão. Mas a contestação que a Isabel Jonet me merece não é do plano da ciência. É do plano moral. É nesse plano que combato tudo aquilo que Isabel Jonet representa. 
Não me lembro se assinei ou não a petição que pedia a demissão de Isabel Jonet do cargo de Presidente do Banco Alimentar. Lembro-me bem, isso sim, da revolta que me causaram aquelas declarações, das discussões ferozes que tive por causa delas e de ter tido a certeza que dali nada se podia esperar de bom. Seguiu-se uma entrevista em que Isabel Jonet dizia preferir a caridade à solidariedade. Queixava-se de ter sido mal interpretada na entrevista à SIC. Mas não perdia a oportunidade de fazer das suas de novo. 
Andou afastada e não tínhamos saudades. Mas na terça-feita veio a terreiro acusar os desempregados de passarem demasiado tempo agarrados às redes sociais, as suas maiores inimigas. 
O problema não está nas declarações em si. Está na concepção que lhes está subjacente e que representa o pior que a caridade nos oferece. 
Isabel Jonet é Presidente do Banco Alimentar. Presta a muitos necessitados um serviço de inquestionável valor. E acha que em função disso os pobrezinhos que ajuda são propriedade sua. Que sobre tudo o que se passa na vida deles pode opinar. Mais! Acha que lhes pode prescrever as condutas dignas de um pobrezinho que se preze. Não devem comer bifes, nem lavar os dentes com a água a correr (Como fazem os seus filhos. De resto, por serem seus filhos parece não fazer mal.), não devem ir a concertos e, sabemos agora, não devem perder muito tempo no facebook. 
Há uma bitola que pobre que é pobre tem de preencher para ser digno da ajuda que a magnânima Isabel Jonet, do alto da sua bondade e da sua superioridade moral, concede. Só assim não se deverá sentir culpado por ser pobre. Só assim será digno da esmola que recebe. 
As declarações sobre a inexistência de miséria em Portugal e sobre a irresponsabilidade dos pais que deixam as crianças irem para a escola com fome falam por si. 
Isabel Jonet é a afirmação do pior que a caridade comporta, é por isso que ambas têm de ser contestadas. 
A luta continua. Contra a fome e contra muito mais do que isso.