sexta-feira, 8 de julho de 2016

A religiosidade científica.


O surgimento em força da ciência dá-se com a incapacidade da humanidade em continuar a encontrar respostas no cosmos. Nesse momento, vira-se para o que está à sua volta, e torna-se então claro que as respostas estão bem mais próximas do que se pensava. É no corpo humano, na natureza, na história ou nas leis da física, neste emaranhado de factos e fenómenos, que irá procurar as verdades que por aí se escondem. O ser humano ilumina-se então, encontrando através da razão a devida racionalidade das coisas, aproximando-se passo a passo, lei a lei, teoria a teoria do funcionamento real das coisas, e mais; do seu devir existencial. Hoje, o homem comum agradece ao legado de formas inteligentes de atingir as verdades, vendo nos crentes meros anacronismos e anomalias da modernidade. Afinal, através da ciência, conseguiremos um dia criar a cura definitiva para o cancro, perceber exactamente como funciona o universo ou até perceber as causas e consequências de dado comportamento mental ou emocional de indivíduos que fogem à santa norma que é a sanidade. Santa não, porque só um idiota poderia acreditar que o nosso comportamento responde perante o divino. Responde antes pelas leis que a ciência, e apenas esta, pode esclarecer. Põe-se a questão: Será mesmo assim?

Seria de esperar que uma parte de mim concordasse. A ciência, o método científico, trouxeram sem dúvida algumas respostas a certos fenómenos. Sobretudo nas ciências chamadas exactas, mas não só, a ciência trouxe aquilo a que se chama regularmente de «progresso», por vezes apenas algum esclarecimento sobre questões antes intocáveis, sufocadas pelas mãos de Deus, outras vezes autênticas descobertas como o foram as leis da física. As ciências sociais trouxeram várias ideias e teorias importantes que por vezes dizemos corresponderem à realidade tal como ela é, mas que, acima de tudo, pusera-nos a pensar nos objectos sob os quais pairavam. Estas ciências já estiveram, aliás, numa situação menos agradável, em que cada resposta encontrada era tomada como um facto, uma inabalável realidade minuciosamente descoberta pela astúcia do sociólogo ou politólogo. Sem bons amigos como Karl Popper não sabemos se o marxismo e a psicanálise não seriam ainda consideradas como ciências puras, ou se o nosso cientista político ou sociólogo poderiam hoje trabalhar com o pressuposto de que as respostas que encontram são condicionadas pela estrutura da investigação – incluindo a pergunta que fazemos – ou a subjectividade inerente ao estudo. Não tenho ilusões – e, se tiver, deixem estar – mas parece-me que a ciência de hoje não é o mesmo diabo da do século XIX. Podemos comparar o que se diz incomparável e ver essas evoluções como equivalentes à de uma Reforma Protestante. Popper foi, na minha opinião, um pequeno Luther.

Não é, contudo, nenhum instrumento de verdades absolutas, e diz-se tão empírica como se dizia a religião, tornando-a absurda de uma forma similar. Parece que a ciência conseguiu inventar tanto quanto conseguiu descobrir, e manifesta uma obsessão pela norma, o normal, que é preocupante para quem consegue pensar para além do hoje e agora. A hiperatividade, o indivíduo hiperativo, é uma das manifestações dessa obsessão, das mais marcantes e óbvias, pelo que não é preciso ser-se Foucault ou Hacking para a perceber. Ian Hacking escreveu aliás coisas importantes sobre o tema. No seu texto "Formar Pessoas", nota como «motores de descoberta» tal a estatística não são apenas motores de descoberta, mas também motores para formar pessoas. A anomalia que consideramos ser as pessoas com personalidade múltipla, o «múltiplo», é um caso curioso. Vejamos a seguinte proposição do autor:

«Em 1955, esta não era uma maneira de se ser uma pessoa, as pessoas não se reconheciam a si próprias desta forma, não interagiam desta forma com os seus amigos, com as suas famílias (...); mas em 1985 esta era uma maneira de ser uma pessoa, de se reconhecer a si próprio, de viver em sociedade.»

Dito isto, será óbvio dizer-vos que o momento em que este fenómeno surge como um problema clínico mudou a vida dos «múltiplos», a conclusão sendo que a ciência os criou (ou iluminou) para os nossos olhos, e que os marginalizou, categorizou e transformou nos olhos deles. O autor atribui uma ordem racional pela qual se categorizam e formam pessoas. 1. Contar., 2. Quantificar, 3. Criar Normas, 4. Correlacionar, 5. Medicalizar, 6. Biologizar, 7. Geneticizar, 8. Normalizar, 9. Burocratizar e, finalmente, 10. Reclamar a nossa identidade: Os indivíduos tentam ganhar controlo sobre o seu destino, seja clínico para «anomalias» físicas ou emocionais, seja ao nível social; sim, será surpreendente para alguns descobrirem que os homossexuais eram alvos da clínica, que se tentava, na fase da "geneticização", encontrar o gene gay. A nossa cegueira científica leva-nos ainda, como exemplificou o autor, a ficar extremamente confusos quando o suicídio, associado à depressão, é feito por um terrorista que se «sacrifica» para matar. A ciência admite deixar erros residuais, hoje sabemos bem como nos atormentam. O terrorismo, claro, não é causado pela ciência, mas é ela, a base de verdade que nos fornece, o catalisador da nossa confusão. Não existe apenas uma causa para o suicídio. Aliás, não é preciso que exista uma sequer.

Há coisa de sete meses, conheci um estudante italiano que a dada altura me disse que estudava estatística. A minha reacção, traduzida numa qualquer expressão facial, foi aparentemente pouco discreta, e causada tanto por achar que há algo de heróico em querer estudar estatística como pelo desgosto que tenho em fazer uma cadeira de estatística. A esta reacção, e como se falasse para uma criança, ripostou: «Como podes não gostar de estatística?», apontou à nossa volta, «A estatística é a realidade!». Na altura, decidi que não valia a pena responder. Hoje, começo pelo mais óbvio, a estatística inferencial, a parte da estatística que tenta tirar conclusões sobre aquilo que conseguiu quantificar. Nesta parte, há uma enorme preocupação em encontrar a tendência, e, deduzindo-a, encontrar todas as partes de uma distribuição que não correspondem à tendência. São, por isso, anormais, fogem à norma. Isto pode ser aplicado a coisas simples, como a tendência das idades numa dada distribuição, e, infelizmente, para os efeitos que Ian Hacking (entre outros) demonstrou. A preocupação estatística não tem só coisas negativas, e é-nos extremamente útil no mundo que decidimos construir. Mas não há duvida de que é ela própria testemunha de algumas classificações impiedosas que fazemos a certos grupos de indivíduos.

 Há que pensar: A obsessão com as anomalias não é ela mesma uma anomalia humana? Não! Pior, uma anomalia criada apenas em dados espaços (ao início no ocidente) e em dados momentos? E quando procuramos tendências para formular leis e teorias, será que aquilo que foge à tendência não é uma parte importante do todo? O que interessa mais, a curva do modelo económico, ou antes todos os elementos que compõe essa curva? Para além da interpretação estatística, o próprio acto de quantificar revela uma especificidade da nossa forma de pensar. Não é, de facto, imperativo quantificar. Fazemo-lo porque queremos, porque achamos que nos leva às respostas que procuramos, mas as próprias respostas são o reflexo da forma como chegamos a elas. O «múltiplo» nasce da nossa busca por quem não esteja dentro da tendência comportamental.

A retórica científica começa a cansar os olhos. O excesso de informação, que embate violentamente contra mais informação, começa a revelar o quão a veracidade destas depende tanto da forma como ela é feita quanto de quem a aceita como verdadeira ou falsa. «Está cientificamente provado que...». Convive com o elitismo científico a banalização da ciência. Esta diz-se a salvação da mesma forma que a religião. São os cientistas e racionais contra os crentes e irracionais. No entanto, nunca pareceram mais próximos a ciência e a religião; ambas se querem rainhas da verdade, espelhos do absoluto e do empírico. Seguindo um método científico, quase sempre saberemos mais chegando ao fim do que sabíamos ao início – é inegável. Contudo a essência encontra-se em todos os erros, desvios e falhas da nossa investigação. Encontra-se também na perpetuação de relações de força, de imposição de poder. A estatística dá-nos as coordenadas da norma e do que lhe foge, a clínica corrige-a. A física, química ou matemática, das quais temos menos queixas por acharmos terem um certo grau de proximidade com a realidade, estão elas mesmas limitadas, e marginalizam à partida o uso de proposições e a capacidade especulativa. Génios como Einstein pareceram perceber isso, e aliaram à ciência a especulação. No entanto, estas últimas trazem sem dúvida muito mais de positivo do que de negativo. Aquilo que descobrem não será tanto o problema. Será antes o facto de reforçarem a retórica empirista da ciência. De termos homens tão inteligentes quanto banais como Neil DeGrasse Tyson a regurgitar estrume na televisão, a falsificar a história do ocidente ou do mundo muçulmano para chegar à conclusão de que os mais evoluídos são aqueles que gostam de ciência e não gostam de Deus.

Em suma, a ciência tem muito de benéfico. Aliás, tem tanto de benéfico que lentamente nos vamos esquecendo que ela não nos pode dar tudo, e que muitas vezes ela é prejudicial para o saber. Existe, nesse sentido, demasiado em comum entre a ciência e a religião. A racionalidade é uma solução, mas é também doentia. Chegámos ao ponto que Nietzsche temia: Os objectos de estudo estão a ser ofuscados pela forma como os estudamos.

Usemos a metáfora que, na República, Platão atribui a Sócrates. Diz ele que os homens que sempre viveram numa caverna iluminada apenas por uma fogueira só conhecem a sombra dos objectos que estão na caverna. A chama arde ao ponto de ofuscar a visão sobre os próprios objectos. Para estes homens, apenas a sombra dos objectos que a chama ajuda a projectar nas paredes da caverna é visível. Acreditam que as sombras são os objectos em si. Quanto a nós, possivelmente não conhecemos a forma dos objectos, mas sabemos o suficiente para perceber que a nossa dedução de que são as sombras está limitada pelas circunstâncias que nos rodeiam. O método científico – e sobretudo a retórica científica - é mais do que uma simples fogueira. A fogueira ilumina, e, tal como na metáfora, também engana. A nossa fogueira já se alastrou ao ponto de ser um incêndio. Não só engana, como começa a queimar a própria essência do saber. Afigura-se potencialmente como o suicídio do conhecimento humano. Deus já morreu. A racionalidade científica já se encontra em coma. E terá de entender que não é divina nem única se quiser sobreviver.

domingo, 17 de abril de 2016

Que loucura nos espera?

“Houve pessoas que julgaram que um rei podia fazer chover; nós dizemos que isso contradiz toda a experiência.
Hoje Julga-se que avião, rádio, etc. são meios de aproximação de povos e difusão de cultura.”
Ludwig Wittgenstein, 1949

  Aconteceu ter passado as últimas duas semanas em casa e, como tal, ter passado mais tempo no facebook do que havia feito nos últimos anos. Este excesso de tempo passado na rede social deu-me que pensar. Não planeio falar dos problemas mais convencionais – propriedade intelectual do conteúdo que colocamos nestes sites, a idade com que as pessoas os começam a utilizar, os problemas no trabalho que foram surgindo ao longo dos últimos anos, ou fenómenos como o cyberbullying. Interessa-me abordar outro lado da questão: já todos estivemos num café com amigos e, a certa altura, damos conta de que todos estamos no telemóvel, com grande probabilidade, numa rede social. Que fenómeno é este, que se vai tornando cada vez mais comum?
  Quando criamos e enriquecemos um perfil, projectamos uma imagem nossa num espaço virtual, de certa forma com a esperança (aqui, a frase “a esperança é a trela da submissão”, de Raoul Vanhaigen, aplica-se na perfeição) de que a rede a projecte de volta no real. Essa imagem transforma-se numa personagem na qual projectamos, premeditadamente, o melhor de nós – as nossas melhores fotografias, os nossos requintes, as nossas virtudes. O facebook é o mundo em que toda a gente é “bela”, o mais próximo da “perfeição” que consegue criar sobre si; ao desenvolvermos os nosso perfis, esperamos que essa “perfeição” regresse ao real, inviolada.
  O que nos vamos apercebendo é que não é essa imagem que regressa, mas o virtual em si que se intromete no real. No café, nas reuniões, nas conferências, nos parques, em todos os espaços de socialização, parece que a rede social vai lentamente substituindo o real social. Mais grave, parece-me, é a causa desse fenómeno: naqueles momentos antes de dormir, ao acordar, na pausa do estudo ou do trabalho, até quando vamos à casa-de-banho, que sempre foram espaços destinados ao convívio com nós próprios, passamo-los agora em rede. Que consequências terá essa substituição para o nosso auto-conhecimento, auto-estima, capacidade de lidarmos com os nossos problemas? Todas estas necessidades individuais passam a ser mediadas através de um ecrã. Torna-se mais evidente quando constatamos que em momentos de infelicidade ou tristeza o facebook se torna, na sua qualidade terapêutica, mais tentador.
  Com o tempo, também a forma de nos relacionarmos se altera. Se inicialmente a lógica do facebook era quase binária – “amigo”, ou não; gosto (ou não); partilho (ou não) – entrámos agora numa fase em que a própria plataforma se complexifica. Face a um post, a rede diz-nos que há seis tipos de reacções que podemos expressar: gostar, amar, rir, ficar impressionado, triste ou irritado. Numa conversa, surge um círculo que indica que a outra pessoa viu o que escrevemos, ao jeito de “a bola agora está do teu lado”. Com estes pequenos detalhes, a rede vai desenhado uma matriz de relacionamento. A sua matriz, que nos é imposta. Da mesma forma que nos relacionamos através dela, também a sua matriz se vai lentamente, creio, projectando em nós e influenciando a forma como comunicamos. A tentativa de recriar e agrupar em pequenos símbolos emoções tão complexas quanto as humanas é, no mínimo, perversa. Corresponde à ideologia do nosso tempo, a da substituição do qualitativo pelo quantitativo – embora hajam seis emoções possíveis a um post, logo são reagrupadas num número único de reacções, indiscriminadas na sua qualidade. Trata-se do fenómeno do hashtag ou dos vines – quanto vazio se consegue comprimir numa palavra, ou quanto nada se consegue expressar num vídeo de 6 segundos. Reduzimos o léxico, porque o pensamento está ele próprio mais reduzido. Também a solidez das nossas relações se vai reduzindo. Assim como o facto de quase todos usarmos as mesmas redes (aqui ou no Peru, com vinte ou cinquenta anos, exercendo a função de presidente da república ou agricultor) da mesma forma, fará apenas com que fiquemos mais iguais. Assustadoramente iguais.
  Até as nossas funções mais elementares, como a memória, são veiculadas pela rede – as nossas memórias visuais são, cada vez mais, as memórias que as fotografias das nossas redes contém.
  Por outro lado, os recentes atentados abriram um precedente perigoso – o facebook tenta, agora, tornar-se útil à organização social com a função “marcado seguro”. É uma função útil, e neste século tecnológico as soluções vão ser, cada vez mais, soluções em rede; mas temos que nos questionar – que perigo representa esta disponibilidade das redes sociais de se tornarem úteis, ou diria tendencialmente necessárias, à sociedade? Desejamos a presença, cada vez mais forte, de uma empresa cujas práticas no que toca à privacidade e propriedade intelectual são, no mínimo, duvidosas? Queremos que uma corporação, na qual não temos qualquer intervenção no processo de tomada de decisões, assuma um papel tendencialmente essencial à nossa vida?
  Estas redes gozam de uma vantagem muito clara – representam a tecnologia, o progresso, e o progresso não se questiona, aceita-se. Uso estas redes, como quase toda a gente, e insiro-me na maioria dos fenómenos que descrevi acima, mas não será altura de colocar questões sérias sobre as redes sociais e o efeito que têm na nossa mente, nas nossas relações, na nossa realidade?

  Em 2008 o facebook atingiu os 100 milhões de utilizadores; em 2014 metade da população portuguesa usava já um smartphone. Este aparelho é o mecanismo de alienação mais forte que alguma vez foi criado. Tratam-se de fenómenos recentes, mas é caso para dizer: que será feito das gerações que crescem, aprendem e se relacionam através destas plataformas? Se em menos de uma décadas chegamos a este ponto, onde estaremos, se não pusermos um travão a toda esta loucura, daqui a vinte anos? Que loucura nos espera?

quarta-feira, 9 de março de 2016

Feminismo, despolitização e interpassividade.

Tendo sido ontem celebrado o Dia da Mulher, pareceu-me relevante falar hoje de aquilo que se tem passado dentro da temática feminista nos últimos tempos. O livro "Elogio da Intolerância" publicado em 2004 pelo célebre filósofo esloveno Slavoj Zizek dá-nos aqui algumas ferramentas de análise interessantes mesmo não tendo analisado o caso do feminismo em particular. Feita a leitura do mesmo, tem-me intrigado cada vez mais a temática do feminismo renovado que emergiu ao longo dos últimos anos. Não se trata aqui de uma crítica aos tipos de feminismo mais tradicionais - como o marxista e o radical - mas antes de uma crítica frontal e sem escrúpulos ao feminismo que é agora conhecido de todos nós.

O livro centra-se numa crítica à nova ideologia dominante, sobretudo no mundo ocidental, que podemos associar a um certo centro alargado e tendencialmente liberal. Trata-se, para Zizek, de uma ideologia despolitizada e no entanto impregnada de multiculturalismo que ele vê como pouco autêntico e quase irónico. É também uma ideologia que se considera pós-ideológica, na forma como deixa para trás a velha dicotomia esquerda-direita. Assim, julga-se como uma nova forma de pensamento, transcendente a velhas disputas que o século passado provou serem pouco saudáveis, o que é, na minha opinião, um sintoma de uma ilusão de Fim da História da parte dos "pós-ideológicos". O multiculturalismo e as lutas identitárias - direitos queer, ecologia, defesa de minorias - são assim o resultado despolitizado de uma ideologia que aceita o destino capitalista enquanto o fim da estrada a nível sistémico, mas que não deixa, para já, outros assuntos por resolver. Interessa-nos reter que Zizek destrói o argumento de que alguém fazendo parte dessa nova ideologia se possa considerar como um indivíduo pós-ideológico, ou até despolitizado, pela simples razão de que uma ideologia é sempre auto-referencial. É por isso despolitizada, mas apenas até onde lhe parecer conveniente, e também fundamentalmente ideológica esta nova forma de (não) pensar a política e as lutas dela decorrentes.

A interpassividade refere-se, segundo Zizek, ou na verdade Lacan, ao oposto de interactividade. Enquanto a segunda é o resultado de interacção subjectiva entre duas (ou mais) partes, a interpassividade é o acto de uma das partes agir para que a outra se mantenha passiva. O exemplo clássico é o dos "risos pré-gravados" nas séries televisivas: A televisão "ri" por nós, representando a própria experiência passiva do espectador. Este último encontra-se agora incluído na série mas em estado passivo, ou seja, o seu papel de apreciação da piada é substituído anteriormente pela unidade activa da relação interpacífica. Para Zizek, as novas formas "pós-modernas" de política como as lutas identitárias de carácter pouco autêntico, e entre elas interessa-nos um certo feminismo, são o agente activo que permite a passividade de um outro agente, que seria, quem sabe, o da paixão pela discórdia política que visa um certo sistema económico global. Com o exemplo do relativo sucesso das reivindicações queer, Zizek nota que se realizou o que Judith Butler julgou impossível dentro do capitalismo que dependeria ele da estrutura familiar "tradicional": "A história do capitalismo não será a longa história da maneira através da qual a estrutura ideológico-política dominante se revelou capaz de conciliar (e de atenuar o carácter subversivo) dos movimentos e das exigências que pareciam ameaçar a sua própria sobrevivência?". Queers já estiveram mais longe dos seus objectivos, mas não terá sido por acaso.

Vade retro Zizek!

O feminismo de que falo pode ter vários nomes. O menos preciso de entres estes seria o de feminismo liberal (porque inclui palavreado e protestações que se enquadram na agenda da direita liberal), por isso seria antes preferível vê-lo como um auto-proclamado feminismo "pós-ideológico". Aliás, desde que a Beyoncé se tem começado a sentir como nova líder espiritual do feminismo, porque não chamar-lhe feminismo-pop? Bem vistas as coisas, pouco interessante será estarmos a distribuir nomes porque falamos todos de um objecto comum, nem que seja porque as redes sociais permitem uma produção e absorção fast-food sem precedentes do feminismo assim como de muitas outras ideias e movimentos.

Antes de mais, parece-me que este feminismo é de facto despolitizado, ou tenta ser, e é um dos agentes activos da interpassividade (pós-)política de hoje. Não se põem aqui em questão a verdade de que as sociedades contemporâneas são ainda, tendencialmente nuns aspectos e radicalmente noutros, de facto machistas, e parece-me até que ambos homens e mulheres - uns mais do que outros - ficam a perder com estas desigualdades, sem falar das vítimas sem voz que são os transsexuais. Precisamos de feminismo. O problema não é tanto o que se está a fazer. O problema é como e sobretudo porquê. Estas feministas conseguem lutar contra desigualdades de género ignorando desigualdades socioeconómicas que vinham fomentando e justificando as primeiras e muitos outros tipo de desigualdades - étnicas, sociais, etc. - sem um mínimo de preocupação em relação ao efeito contra-produtivo que isso poderá ter se e quando as reivindicações feministas vencerem. Para além das considerações sistémicas, é um feminismo que se corrompe e banaliza a si mesmo. Despido de política, despido de outros factores que o da relação homem-mulher ao nível artificial, é um feminismo minimalista, de intelecto reduzido e que nunca poderá discutir alguns dos problemas de raiz que criam as desigualdades de género. É, em suma, um feminismo que tenta dar uma resposta sem se fazer uma pergunta primeiro.

É ainda um feminismo que na minha opinião consegue ir para além da questão identitária interpassiva: Nas reivindicações identitárias pode ainda haver um "acordar" colectivo de todos os que pertencem a dada "classe" em luta, ora, parece-me que neste caso, aqueles e aquelas que a este feminismo se juntam fazem-no pela via individual, de limpeza de consciência, de forma a aderir de maneira superficial a um grupo que os coloca um pouco mais perto do grande politicamente correcto do progresso. É na minha opinião um tipo de grupo mais específico dentro dos grupos identitários pelo papel que dá à individualidade enquanto actor artificial, mas não vou esgotar o assunto aqui.

Infectado por redes-sociais e pop-stars que nunca se teriam interessado à causa em 1989, este feminismo foi por sua vez infectando algumas vozes do feminismo radical que considero mais "verdadeiro", sendo possível ver na página do The Guardian como feministas que antes se batiam com cabeça e caução agora se atiram de cabeça para a estupidez e provocação pura. Este é por fim, um feminismo auto-destrutivo por se deixar em campo aberto contra a maquinaria machista banal e imbecil, e ainda mais contra a conservadora não imbecil. Vencerá? Julgo que sim. Mas a vitória que irá alcançar será não apenas artificial como estruturalmente frágil se e quando se manifestarem outras tendências machistas na sociedade, para além das desigualdades não encaradas neste feminismo desconexo dos problemas de raiz. Não será, em suma, uma vitória definitiva e isto por causa da sua natureza despolitizada e também interpassiva: Despolitizada por ser um feminismo oco, artificial e apenas reformista; interpassiva pois os fantasmas da estrutura familiar e os papeis dentro da mesma que outrora atormentavam o feminismo podem regressar. Pode o modo de produção capitalista sobreviver com um ponto de igualdade perfeita entre géneros?


Em termos hegelianos, se queremos que a antítese à tese que é a sociedade machista seja a do feminismo "pós-ideológico", então a síntese daí resultante será uma que deixará as mulheres que acham que atingiram a tão merecida igualdade à boca de uma nova realidade que será de uma ainda maior vulnerabilidade para as mesmas. E enquanto isso acontece, aquilo que realmente importa, como diz Zizek, ficará intacto.


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Adam Smith, Darwin e a ética neoliberal - Da harmonia dos interesses à concorrência selvagem

              Escrevo este comentário em seguimento ao excelente post do Ricardo Henriques intitulado O Erro de Marx. Enquanto que o Ricardo procurou desmistificar os valores da esquerda obsoleta para que ela se possa desfazer do síndrome de Marx e assim evoluir enquanto força ideológica renovada, o comentário que se segue pretende atacar alguns dos valores centrais da ideologia neoliberal, partindo do pressuposto de que a interpretação dos pensadores neoliberais clássicos do contributo de Adam Smith estão incorrectas e desactualizadas. Para esse efeito, darei toda a atenção necessária ao evolucionismo de Darwin, mas irei também focar-me nas realidades económicas, sociais e demográficas que foram inviabilizando a teoria da harmonia dos interesses, sendo estas duas fontes, uma teórica e outra mecânica, os principais processos de inviabilização das economias neoliberais enquanto um todo.
             
             No seu livro, A Riqueza das Nações, Smith deu nascimento à escola do laissez-faire. Anteriormente tinha já chegado a outras conclusõesEstudando a sociedade, observou nela a existência de três classes: Aqueles que vivem de rendas, aqueles que vivem de salários e aqueles que vivem dos ganhos (earnings/profits). Afirmou também que os interesses destas três classes eram idênticos, ou seja, que seguiam todas um interesse comum - o interesse geral da sociedade. Havendo ou não uma consciência individual da harmonia destes interesses seria então uma questão secundária. Esse interesse estava baseado no interesse individual: Maximizando os seus ganhos, cada indivíduo faria o melhor de si mesmo. O indivíduo não  estaria assim disposto a servir o interesse público - sendo que até poderia não lhe acrescer valor nenhum - mas sim a servir-se a si mesmo. Assim sendo, se todos os indivíduos seguissem o seu próprio interesse, conseguiriam, a médio e longo prazo, melhorar a sociedade como um todo. Adam Smith chega assim a uma conclusão nascida das condições económicas e sociais vigentes na sua era: A Riqueza das Nações é uma reacção ao domínio do Estado e do regime nas vidas dos indivíduos. A Mão Invisível iria assim substituir o Estado para que a sociedade se pudesse melhorar, não havendo travão ao potencial dos indivíduos enquanto colectivo, nem do colectivo enquanto indivíduos.

        A harmonia dos interesses de Adam Smith, para além de ser uma reacção a um contexto social, fazia todo o sentido economicamente, aplicando-se perfeitamente à estrutura económica do século XVIII: Uma sociedade de pequenos produtores e comerciantes interessados em maximizar as suas trocas e ganhos. Era também uma sociedade em que a produção não implicava uma especialização muito aprofundada e em que havia mais interessados na maximização da produção do que na redistribuição da riqueza. 

     Enquanto que teoria do laissez-faire se encontrava ainda no laboratório pessoal de Smith, começaram a surgir invenções, tal como a máquina de vapor, que permitiriam a criação de indústrias gigantes, especializadas e sem fronteiras, e consequentemente de um maior proletariado mais direccionado para a redistribuição da riqueza. A invenção de Smith estava, pois, minada por outras invenções materiais. Uma vez concluída a criação das economias capitalistas, a harmonia dos interesses era agora mais normativa do que real: Quem sublinhava que existia ainda uma harmonia de interesses era a classe que estava preocupada em manter uma forma de dominância em relação aos trabalhadores. Enquanto que essa harmonia de interesses não existia realmente, a sua aparente existência devia-se ao crescimento da economia e da prosperidade sem precedentes. A contestação geral ainda não teria surgido porque a concorrência animalesca ainda não estava no ponto graças ao crescimento e expansão da economia, que davam lugar a novos sectores de produção, eliminando indirectamente a concorrência por sector. A questão das classes era ultrapassada pela introdução dos representantes das classes trabalhadoras no próprio mercado de bens. O capitalismo sobreviveu e bem durante esta fase inicial pela sua expansão e crescimento sectorial que parecia ter um potencial infinito.

     No entanto, rapidamente se sentiu o capitalismo a chegar aos seus limites, não ao nível do crescimento, mas do que ele representava tanto para os trabalhadores como para os empreendedores. Tínhamos chegado ao ponto em que a estrada tinha demasiados carros. Nas palavras de Karl Manheim, não é necessário controlar o fluxo do número de carros enquanto que este não excede a capacidade da estrada. O capitalismo, por força da sua expansão, chegou rapidamente a limitar a utopia liberal pela ferocidade da competição que tinha criado. Os escritos de Adam Smith serviam para economias pré-capitalistas, economias em transição para o capitalismo e economias na sua juventude capitalista. Depois disso, apenas servia para alimentar os estragos que viriam a causar. Assim, o sonho de que poderia haver uma harmonia eterna chegava ao seu fim. Segundo Dostoievski, o preço da eterna harmonia era demasiado elevado se implicasse o sofrimento dos inocentes.
    Nos finais do século XIX, o laissez-faire  ao nível internacional tinha beneficiado apenas  a Grã-Bretanha, deixando os restantes países em posições desiguais - facto que podemos associar à Alemanha dentro do Euro não racionalizado e indiferente face às desigualdades estruturais entre estados. Dentro da nova realidade económica, foi o evolucionismo de Darwin que permitiu justificar a nova harmonia de interesses. Ao nível da biologia, os mais fortes acabam por vencer os mais fracos. Esta mentalidade foi transplantada para a economia e o trabalho. Assim, a concorrência desmesurada, e portanto a destruição dos mais fracos, faz também parte da harmonia dos interesses. Não nos esqueçamos que o próprio Marx, no seu livro Theorien über den Mehrwert, disse que " o desenvolvimento da espécie (...) e por isso o desenvolvimento máximo do indivíduo, apenas se pode realizar ao longo do processo histórico onde certos indivíduos são sacrificados." Embora Marx teria certamente outra forma de ver o fim deste sacrifício, Darwin deixou uma marca clara através de todo o espectro ideológico. A marca do século. 

     A eliminação dos mais fracos é desde logo a faísca que transforma, sem que ninguém dê por isso, a harmonia dos interesses na concorrência selvagem e desmesurada, aplicando-se perfeitamente nas novas economias capitalistas, não apenas para justificar a dominância de uns sobre outros, mas também e sobretudo para maximizar o seu potencial de crescimento. Hoje, os resultados da concorrência selvagem levaram-nos ao crescimento das desigualdades entre indivíduos e regiões, à subordinação da política ao dinheiro e dos estados a empresas. Ao nível da política internacional, a insistência na harmonia dos interesses levou ao desastre utópico entre as duas guerras mundiais, alimentado por Woodrow Wilson e a SDN, que não entenderam que a harmonia dos interesses não servia para todos, e sobretudo não para os alemães, que tinham beneficiado muito das guerras em 1866 e 1870, e deixaram de lado políticas de poder (Power Politics) que poderiam ter evitado o desastre de 1939-1945. Nenhuma guerra se explica porque existe um maluco no poder de um estado. As guerras explicam-se mais pela inacção dos outros estados do que pela acção de um estado governado por um fanático.

   Com aquilo que sabemos hoje sobre a ideologia neoliberal, podemos concluir que os próprios neoliberais estão tentar aplicar uma utopia fora do seu tempo, sendo que Adam Smith desenhou uma teoria para a altura em que viveu. Seria como tentar aplicar a solução marxista num mundo hoje muito mais complexo. O génio de Smith não pode ser entendido por todos, e sobretudo não por aqueles que pretendem compreendê-lo. O evolucionismo de Darwin é uma realidade biológica. No entanto, tentamos aplicar uma verdade da natureza a uma realidade que é nossa, que podemos racionalizar e construir segundo aquilo que entendemos ser justo e exequível. A ética neoliberal baseia-se em valores nos quais acredito também, tal como a liberdade. Sou a favor de liberdade nos mercados, mas se ela se traduz em liberdade de nos esmagarmos uns aos outros é porque algo está errado. A liberdade não é empírica, deve também ela ser forjada e moldada segundo as necessidades e desejos que se apresentam. O neoliberalismo económico enquanto doutrina já falhou, agora vamos esperar pelas suas consequências.

   Citando Edward H. Carr: "O pensamento imaturo é essencialmente utópico e direccionado para um objectivo. O pensamento que rejeita o objectivo é o pensamento da velhice. O pensamento da maturidade associa o objectivo à observação e à análise"
   Vejo o pensamento neoliberal como o pensamento da imaturidade e da velhice. Mas nunca como o da maturidade.


terça-feira, 27 de outubro de 2015

O erro de Marx

Já muito tempo passou desde a minha última publicação no blogue. Não que tenha deixado de acreditar na importância da partilha de opiniões, antes pelo contrário, senti um imperativo de reflectir e estudar de forma mais profunda algumas matérias.
Karl Marx foi, para mim, dos filósofos que mais influenciou o estudo da sociedade e do seu funcionamento. Não apenas da capitalista, mas de como os homens se movem. Aquilo a que Karl Popper chama do economismo de Marx, a sua tese de que são as relações de natureza económica entre os humanos que em última instância definem as coordenadas da sua relação em sociedade. Mas, na minha modestíssima opinião, é precisamente aqui que reside um dos seus erros.
Theodor Adorno e Max Horkheimer, na sua obra conjunta "Dialéctica do Esclarecimento" definem o conceito da realidade social como totalidade, isto é, como um conjunto de diferentes factores, materiais e meta físicos. E devemos pegar na sua análise para poder corrigir a teoria marxista.
Uma vez que a atribuição de sentido pertence ao campo subjectivo de cada um, e que esse campo subjectivo, pela unicidade das suas vivências, é único e imprevisível, o impacto desta imprevisibilidade na atribuição de sentido é também ele imprevisível. A vontade de um grupo de indivíduos que se une por uma causa que seja transversal à sua condição social e que una pessoas de diferentes meios económicos pode, por exemplo, superar as relações económicas estabelecidas indirectamente entre si. A História, quando não é lida retroactivamente, está repleta de acontecimentos que surgiram por factores muito mais complexos que a simples vertente económica. As próprias condutas éticas e as diferentes percepções em relação à riqueza material entre as diferentes sociedades ocidentais europeias, e a própria variedade de concepções dentro de cada sociedade, demonstram que a atitude perante a solidariedade, a xenofobia, a família, a pobreza, dependem de muito mais factores que simplesmente a relação económica entre os indivíduos. Olhando para a situação de hoje, devemos, por exemplo, procurar entender os conflitos "Europa do Sul vs Europa do Norte" para além das questões económicas; como também devemos procurar entender os meandros psicológicos e sociológicos que levam a um crescimento do anti-comunismo na Europa de leste sem cair nas mesmas explicações simplistas acerca do impacto da sua economia mais lenta e menos modernizada ou do aparelho de Estado mais ou menos controlado por interesses particulares que não gera a qualidade de vida esperada depois da queda do socialismo.
Se queremos realmente compreender o funcionamento da sociedade devemos ser capazes de incluir no nosso estudo todos os factores de ordem qualitativa que nos influenciam e que nós próprios criamos para dar sentido à realidade. Temos de ser capazes de compreender a complexidade do universo subjectivo de cada indivíduo e a consequente complexidade das relações resultante desta subjectivização.
Concluindo, para sermos capazes de construir a sociedade pós-capitalista, a nova utopia da esquerda, temos de assumir a responsabilidade de sermos os mais críticos de Marx, de Lenine, de todas as experiências falhadas de socialismo real e de todas as abstracções teóricas que levaram a esquerda para o beco sem saída em que se encontra hoje.
Falar de "socialismo" sem antes condenar de vez os crimes cometidos por esse nome e sem assumir o falhanço é o acto mais ridículo e superficial que se pode ter. A esquerda tem de ser corajosa e intelectualmente honesta. Tem de ser capaz de assumir os seus erros e as limitações das interpretações anteriores do que deve ser a sociedade não-capitalista.
Se queremos levar o trabalho de Marx para a frente há que assumir e apontar os seus erros, corrigi-lo e honrar as suas limitações.  

domingo, 15 de março de 2015

Uma guerra que não é nossa

Se há equívoco que leva a desentendimentos de forma desnecessária e gratuita, é o equívoco dos falsos opostos.
Falo neste equívoco porque há um tema da atualidade que nos leva constantemente para discussões sem sentido onde se tomam posições automáticas sem reflexão. Falo da questão do ISIS e da intervenção dos E.U.A. no médio oriente. Este é um tema onde, muito mais à direita do que à esquerda, se tende a cometer o erro do "se não estás comigo, estás contra mim."
O sentimento anti-americano que se pode observar na esquerda não pode nunca ser confundido com uma postura pró jihad nem ser tomado como uma posição de desculpabilização dos atos terroristas cometidos por um grupo islamo-fascista. A postura do verdadeiro anti-terrorismo de esquerda obriga à imediata condenação tanto do ISIS como do estado americano. Jamais se pode compactuar com a postura hipócrita e cínica liberal, que criou e alimentou uma tensão política e social de tal forma que agora não tem maneira de o resolver, nem com os atos bárbaros e selvagens de um grupo criminoso por muito ressentimento que o esteja a motivar.
Neste tema, a direita fixa-se na masturbação intelectual do período da Guerra Fria condenando qualquer crítica ao "perfeito" sistema democrático liberal, seguindo religiosamente um Fim da História que nem o próprio Fukuyama ainda acredita. Mas é preciso acabar com esta falsa dualidade. Essa guerra não é nossa. Não no sentido em que não temos que trabalhar para resolver o conflito, mas no sentido em que o trabalho para a resolução passa precisamente pela crítica aberta às duas frentes e aos dois tipos de fanatismo. O pensamento crítico não é um valor americano, nem a liberdade de expressão, muito menos os direitos humanos. Não há países salvadores da humanidade que sintam que podem bater a porta de todos os parlamentos para vender a "democracia". Nem pode haver grupos que se desresponsabilizam da sua condição humana e do seu elo de ligação com o Outro em nome de uma religião.
Não podemos deixar que se caia em discursos mccarthystas nem em visões limitadas das tensões políticas. Porque apesar de acreditar no direito à auto-determinação dos povos, não confio nestes dois estados auto-proclamados.

domingo, 1 de março de 2015

Será possível pensar numa sociedade não repressiva?

Segundo Herbert Marcuse, a sociedade capitalista deu o seu passo fundamental quando o Princípio de Desempenho (o princípio de maximizar o contributo de cada um de acordo com a divisão do trabalho) se tornou no Princípio de Realidade (o sistema ou quadro de valores de referência para uma sociedade). Este Princípio de Desempenho, para funcionar na forma adequada, parte de uma repressão do Princípio de Prazer, presente nos nossos instintos. Esta repressão não afecta o mundo das fantasias, mas interfere com a nossa percepção consciente e inconsciente da realidade e com a nossa construção moral. Desta forma, a repressão dos instintos é um princípio fundamental para o desenvolvimento do Princípio de Desempenho. Este, na sua forma óptima de funcionamento, perpetua a máquina capitalista e cimenta o lugar de poder e influência da classe dominante. Esta repressão surge como a resposta para o funcionamento civilizado da comunidade, sob pena da desagregação do tecido social. Contudo, os instintos só surgem como desagregadores do Princípio de Realidade quando este é o Princípio de Desempenho e porque foram submetidos, desde o nascimento do indivíduo, a uma repressão, originando assim a tensão entre os desejos inconscientes e as exigências da sociedade, a famosa tensão freudiana do id e supereu. Para Freud, esta relação antagónica era perpétua e inerente a qualquer sociedade.
Será então possível construir uma sociedade não repressiva?
A questão deve ser reflectida de forma séria. Foi primeiramente colocada e aprofundada pela Escola de Frankfurt, e há um argumento que me leva a querer colocá-la, pondo em causa a premissa de Freud: a repressão só se dá aquando o nascimento do indivíduo, isto é, só acontece quando este é exposto ao Princípio de Realidade vigente. A tensão não é inerente a qualquer ser humano, é resultado do antagonismo entre o Princípio de Desempenho em si e o Princípio de Prazer, devido à repressão que necessita de aplicar para o funcionamento da sociedade tal como a conhecemos. Assim, abre-se caminho para a discussão sobre a veracidade do carácter inultrapassável da tensão supereu-id e para a discussão sobre a possibilidade (mas não probabilidade) de construção de uma sociedade em que esta tensão foi resolvida.
Dentro da Escola de Frankfurt, há quem defenda esta possibilidade e por isso se afasta de Freud. Mas também há quem rejeite esta ideia, considerando que a premissa de um antagonismo inultrapassável entre o supereu e o id deve ser tomada como verdadeira. A minha posição situa-se entre os dois pólos, tentando conciliar algumas ideias de Erich Fromm (defensor de que uma alteração na estrutura da sociedade poderia originar um alívio da tensão) e Slavoj Zizek (defensor do retorno ao pensamento lacaniano que defende os pressupostos freudianos).
Como?
Tal como já referi no meu outro texto, uma auto-reflexão profunda, que recupere a soberania do indivíduo na construção da sua identidade e da sua rede simbólica, dá o primeiro passo para uma auto-análise dos próprios instintos e repressões sofridas do exterior. Esta capacidade de auto-análise permite a superação de sentimentos de culpa, de desejos insatisfeitos, de complexos de inferioridade causados pela repressão, integrando o inconsciente no consciente, permitindo a reflexão racional e consciente do indivíduo sem descartar as emoções e a estrutura simbólica da nossa realidade. Esta soberania é o que permite fazer o julgamento completo (defendido por Adorno, julgamento que incorpora a Emoção e a Razão) livre de grande parte da repressão exógena.
Por sua vez, é também esta auto-análise que permite uma participação consciencializada em projectos de acção política que procurem anular a repressão. A ausência de repressão só pode ser discutida, como projecto para lá da utopia, quando a própria repressão for totalmente compreendida por cada indivíduo. Retomando os termos marxistas, quando houver uma consciencialização. O que Marx não sabia, nem podia saber na altura, é que hoje a complexidade da alienação não se limita ao desconhecimento dos mecanismos de dominação por parte da classe burguesa. A alienação de hoje passa pela própria aceitação.
O passo para esta consciencialização e subsequente superação da repressão é o passo que temos que dar hoje. Todos e cada um.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Uma ingénua reflexão sobre o pós-capitalismo

O sistema capitalista infiltrou-se em inúmeras esferas do ser humano. Interfere de forma destrutiva mas ao mesmo tempo perpetuadora do próprio sistema. Esta interferência é, muitas vezes, mais visível no campo Simbólico, penetrando no nosso inconsciente e deformando a nossa percepção das coisas, do Outro, de nós próprios, da realidade. A profundidade e o alcance destas interferências é tal que na nossa concepção do fim do mundo ou do fim da própria vida, atribuímos primazia à ideologia. É tal a interferência, e de tal modo destrutiva, que o uso da Razão está também ele minado pelos pressupostos e valores capitalistas, reduzindo, a priori, o alcance do nosso raciocínio e a sua complexidade. A influência negativa da lógica de acumulação, tanto para o universal como para o particular, é algo já muito falado e estudado.
A pergunta é, recordando o velho Lenin, "o que fazer?". Para responder-mos a esta questão precisamos: 
1) Analisar criticamente as tentativas falhadas de superação do capitalismo;
2) Formular novas perguntas adaptadas ao nosso contexto histórico-social repensando a sociedade à luz dos teóricos do passado.

Estas são as duas grandes sugestões de Slavoj Zizek, mas uma vez dados estes dois passos, temos que nos atrever a iniciar o processo de superação do capitalismo. Esse processo divide-se em três grandes esferas (individual, local e global) e deve começar exactamente onde a interferência ideológica é mais profunda: no campo Simbólico. 
Mas como? 

Na minha humilde condição de estudante, arrisco-me a propor uma "destruição metafísica" das relações de poder feitas através do dinheiro/capital. Esta "destruição", no plano local, deve ser levada a cabo por um número considerável de membros da comunidade, exigindo um mínimo de compromisso, concentrando-se em criar estratégias de não reconhecimento dos mercados capitalistas recorrendo a formas alternativas de troca. No campo global, deve-se fazer frente às grandes instituições financeiras através da cooperação entre estados e da criação de redes alternativas que não respondam perante os gigantes tradicionais. É arriscado, mas aqui devemos seguir Napoleão "On s'engage et puis on voit".
No campo individual, a "destruição" deve seguir as velhas orientações de Marx: auto-reflexão e a recuperação da soberania na atribuição de sentido aos nossos objectos de desejo e na construção da nossa identidade. Este passo na esfera individual é o que permite a participação activa e eficaz nos compromissos de acção colectiva. Sem esta auto-reflexão, a participação torna-se cega. Isto é, a impermeabilidade do sujeito perante uma possível deslocação da sua identidade para a Causa em si, a total entrega ao Grande Outro, fica muito reduzida.

Assim, existe uma relação de profunda e complexa dependência entre estas três esferas. E, seguindo a tríade lacaniana, existe também uma relação de interligação entre o Simbólico, o Imaginário e o Real, modificando-se e afectando-se entre si. Desta forma, uma revolução no Simbólico, obrigatoriamente inicia uma revolução no Real e no Imaginário.
É com esta "destruição metafísica" que se torna possível libertar da prisão ideológica que vivemos. Sem ela, os nossos instintos e vontades inconscientes continuarão a seguir o quadro de valores capitalistas.

É preciso sair da alienação, tomar consciência, compreender a ideologia e a repressão. É preciso recuperar a consciência do nosso poder, da nossa autonomia, da nossa liberdade e, em última instância, de nós próprios. 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Sobre Esperanças e Sectarismos


  A vitória do Syriza é uma vitória de todos os que se opõe à Europa do século XXI. De todos os que se opõem à austeridade. De todos os que põe as pessoas à frente do capital. Talvez não satisfaça os puristas, talvez não venha a ser o que parece, talvez haja incongruências; mas não há nada que lhes agrade, não há nada que venha a ser o que se planeou, não há nada que seja coerente em absoluto. Sou obrigado a subscrever o Zizek quando afirma que o Syriza foi a esquerda que teve a coragem de largar o conforto do confronto marginal para arriscar tomar o poder. Pode ser um conforto com objectivos mais “complexos”, mas é um conforto. Sem conotação positiva ou negativa, apenas como facto.
  Sou da opinião de que há soluções diferentes para o mesmo problema, e apoio as várias tentativas. A tomada do poder mantendo a mesma matriz institucional seguramente não me parece a melhor estratégia a longo prazo, mas 300 000 gregos têm agora acesso aos serviços mínimos que antes não podiam pagar. O funcionário do Pingo Doce grego ganha agora quase mais 200€ que antes. Se no longo prazo esta pode não ser a melhor estratégia, no curto prazo é uma vitória inigualável na Grécia. Pelo menos para aqueles que lá vivem.
  Para além disso, abrem-se mais portas. A esquerda radical está a conseguir recuperar espaço político na Europa. Acima de tudo está a conseguir, lentamente, equiparar o seu crescimento ao da extrema-direita, o grande perigo que enfrentamos agora. O timming também é o certo, a menos de um ano das legislativas espanholas, a vitória do Syriza pode ser a garantia do Podemos, e pode ser o apoio de um possível Costa na Europa ou, num cenário ambicioso, o impulso que falta ao Die Linke ou ao BE. Não falamos de paraísos, mas de uma europa menos infernal. É nesse sentido que estas são, incontornavelmente, vitórias.
  Falamos de partidos populistas? Sim. Mais uma vez, a via do populismo de esquerda não me parece a mais bela, mas se for esse o meio para melhorar francamente a vida de uns milhões de pessoas, que seja.
  Não são as vias e soluções que mais apoio ou nas quais deposito mais esperança, mas julgá-las sem lhes conceder crédito é simplesmente triste. Entristecem-me aqueles que não conseguem mais que tecer críticas sem conceder créditos, aqueles que não conseguem conceber mais do que duas cores, que não percebem que o mundo não é preto no branco e que é precisamente nas tonalidades que reside o valor das coisas.
  Prefiro o branco, mas na impossibilidade de o obter, prefiro que o cinzento seja claro.
  Agora, resta-nos esperar. No meu caso, espero que o Syriza consiga ser bem sucedido naquilo a que se propõe, aos sectários de esquerda que lhes desejam mal, precisamente por o fazerem estão um passo mais longe de serem bem sucedidos nas suas próprias lutas.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Ideias locais para soluções globais


  O capitalismo leva agora mais de um século de desenvolvimento. Está integrado em todos os sectores da sociedade. Ao contrário do que se passava antes, a lógica quantitativa do mercado está presente em todos os espaços que por excelência se distanciavam dessa lógica. Das artes ao tempo livre, da casa ao café, da cultura à tecnologia. É cada vez mais difícil distanciarmo-nos da lógica mercantilista em vigor. Rejeitá-la apresenta-se uma tarefa heroica.
  Já não há, pelo menos na Europa, uma esquerda forte. Não há uma cultura revolucionaria num sector representativo de nenhuma sociedade europeia. Não existe esquerda radical que não seja meramente circunstancial, o Syriza e o Podemos são esquerdas radicais, de dimensões significativas, mas tão passageiras como o Bloco de Esquerda o é. Os objectivos originais de todas as esquerdas foram-se dissolvendo em exigências temporárias. A procura da cura transformou-se em administração de medicamentos. Não consigo conceber, nesta década ou nas próximas, uma solução europeia. Muito menos uma solução mundial. Infelizmente, essas soluções são “coisa do passado”.
  São escassos aqueles que publicamente se assumem como anti-capitalistas, pelo menos na esfera pública, o próprio termo cai cada vez mais em desuso por calculismo político mal calculado.
  Coloco-me então a questão: não passará a solução pelo inverso? Soluções locais e autónomas que tenham o potencial de expansão? Que sejam o laboratório de experiências políticas, quer de organização social como de pensamento livre, de novas formas de governo e antigos métodos de autogestão.
  Comunidades excedentárias que possam usar excedentes para combater défices. Não há emprego ou desemprego numa comunidade, há tarefas, infinitas. Umas necessárias outras acessórias. Não há forma de uma comunidade ser auto-suficiente e ter variedade nos produtos que dispõe. Nem creio que seja desejável uma comunidade que se deseje excluir em absoluto de tudo o que o capitalismo trouxe com ele. Mas é possível que disfrute sem excesso do que de bom há no “desenvolvimento” recorrendo aos excedentes como meio de financiamento.
  Estas comunidades, no entanto, têm que deixar de ser exclusivas daqueles que se marginalizam para serem escolha daqueles que se afirmam. Têm que ser escolhidos não só por nós, mas pelas figuras públicas deste mundo, da política à cultura. Parece-me, infelizmente, que para ganharem a dimensão de “alternativa” têm que ser legitimadas desta forma.
  Têm que se tornar espaços de criação artística e intelectual. Espaços onde a labora e o trabalho são duas coisas diferentes, a primeira necessária e limitada pela necessidade, o segundo como uma escolha, ilimitada pela vontade. O que as cidades foram noutros tempos, pode agora ser o campo.
  O efeito multiplicador aplicar-se-ia na perfeição a este meio, que no espaço de gerações poderá vir a constituir a melhor e mais desenvolvida alternativa ao capitalismo. A multiplicação de comunidades deste género, acompanhada de perto pelo desenvolvimento tecnológico criará condições para que este estilo de vida, inicialmente ligado ao mercado por necessidade dele se separe por possibilidade.
  Que outra solução é tão exequível e real? Que outra solução pode ser tão global senão uma local? Só este formato permite a diversidade necessária para uma escala mundial. Só assim quem se governa vive contente com o seu governo, porque é seu, não apenas escolhido por si. Para além da diversidade de novos sistemas que necessariamente surgirá, a globalização permite igualmente a partilha destes, que não sendo mais marginais se podem rapidamente tornar originais alternativas.
  É a única alternativa real em que consigo pensar. Seguramente existem outras, e esta sem dúvida desencadeará outras tantas, seguramente melhores. Mas como primeiro passo, parece-me o passo mais acertado.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A crise de identidade da esquerda

Há uns dias Manuel Valls defendeu retirar-se a palavra “socialista” do nome do Partido Socialista Francês. É compreensível e eu apoio. A hipocrisia já começa a ser demasiada.

Há semanas coloquei aqui um texto sobre o sectarismo da esquerda, sobre a prisão que a nossa esquerda vive às utopias do passado. Hoje, mais do que nunca, reforço essa minha posição. Não se fazem as perguntas certas, e a pergunta mais crucial de todas ainda está por responder: o que é ser de esquerda hoje?

Chega de pensar em revoluções à moda do séc. XX, de tentar reatar chamas que já nem acesas estão. Os problemas da sociedade de hoje são diferentes, muito mais complexos psicologicamente, muito mais difíceis de resolver. Não só pela complexidade do tecido existencial que os constitui, mas porque a mudança já não se resume ao nosso quintal e estende-se pelo bairro inteiro.
O Estado Social escandinavo é bom (segundo o meu próprio conceito de bom, que engloba questões como a intervenção do estado na proteção dos desfavorecidos, liberdade de expressão, fomento à educação, etc). No curto prazo, deve ser essa a referência para os combates a fazer. Mas infelizmente não chega. É preciso algo de mais radical mas ao mesmo tempo mais gradual e global. E quando digo radical, digo romper com os mitos bernsteiniano e soviético.
É preciso acabar com a hipocrisia que senhores como Valls personificam. Ser de esquerda é querer realmente progredir. E esse crescimento começa na própria autocrítica, na autoanálise. Começa por sermos francos connosco e aceitarmos o falhanço da esquerda tradicional. Seja por se ter desviado ideologicamente para o neoliberalismo e com isso ter perdido a personalidade, seja por ter ficado agarrada aquilo que fazia sentido no passado e que hoje toma forma num discurso descontextualizado e desligado da realidade, seja até, em último caso, por não assumir as responsabilidades criminosas dos regimes autoritários que criou e apoiou.

Por isso é que digo que está na altura de alargar o debate, de nos questionarmos e não termos medo de participar. A esquerda tem de ter coragem para participar no poder e com isso dar os primeiros passos para a transformação mas tem também de se questionar, tem de refletir e estudar, para quando chegar o momento do passo derradeiro, saber que tipo de sociedade pós-capitalista quer. Chega de reviver o passado.
Não chega reclamar pelas conquistas socioeconómicas do consenso do pós guerra ou insistir no mito comunista ortodoxo. A esquerda perdeu-se exatamente porque não soube debater sobre si mesma e compreender as transformações da sociedade, perdendo a pouco e pouco a sua identidade e o seu carácter progressista.

Chega de sectarismos à Estaline mas chega também dos Valls deste mundo. É preciso (re) ler o Marx, pensar pela nossa cabeça e construir a nova esquerda.


(Porque desde 1789 que aprendemos que a guilhotina nada resolve.)

domingo, 12 de outubro de 2014

O Estado somos nós

É difícil assumir a responsabilidade dos nossos atos. É difícil arcar com as consequências das nossas escolhas. É pesado o fardo de ser o único capaz de ultrapassar as nossas barreiras interiores. Mas mais difícil tarefa, é conciliar toda essa responsabilidade com o desejo fervoroso de ajudar os outros a assumi-la.

E nisto entra o papel do Estado. Mas qual é ele? Será apenas um Estado mínimo cuja função é atenuar as desigualdades e proporcionar aos desfavorecidos iguais oportunidades? Ou será algo de mais profundo, mais paternal, capaz de nos impedir de tomarmos caminhos que serão danosos para a nossa própria existência?

Na minha opinião, este debate é demasiado complexo para me poder limitar a dar uma opinião simplificada. Contudo, não quero deixar de expressar a minha visão sobre este tema.

Para mim, o Estado (essa entidade quase abstrata escondida atrás das longas filas de espera da segurança social e dos hospitais públicos) não é mais do que o conjunto de todos nós. É o conjunto de todas as instituições e pessoas. É a única entidade em quem podemos confiar exatamente por fazermos parte dela.

Mas terá o Estado de ter o papel paternal de nos impedir de seguir rumos que nos levam à infelicidade? Terá o Estado o direito de me dizer o que eu devo ou não fazer relativamente à minha vida? Por muito que nos custe ver um amigo numa relação amorosa complicada, nada saudável, temos o direito de lhe tirar a oportunidade de viver essa relação hedionda com o(a) parceiro(a)?  

Na minha jovem opinião, não. O Estado não pode ultrapassar o limite de “safety net”. Não tem o direito de ser o pai que nos dá ordens, mas tem o dever de ser a mãe que nos recebe sempre de braços abertos mesmo quando erramos. O Estado tem de ter paciência, tem de ser compreensivo, empático. Mas jamais pode ser autoritário, manipulador e moralista. O Estado jamais pode ter como missão incutir valores morais aos cidadãos.

Mas afinal, qual é a linha ténue que separa esses dois Estados?

Para mim essa linha é demasiado complexa para ser definida com meras palavras ou com réguas e esquadros. O papel do Estado tem que ser algo constantemente questionado, avaliado e melhorado. Na economia, por exemplo, tem de ser influente. Tem o dever de garantir aos que vivem em piores condições o direito a viver uma vida digna. Tem de garantir preços baixos (acessíveis a todos) nos sectores basilares da sociedade. Tem de ter um papel ativo.
Mas o contrário se passa quando tocamos nas tradições e na cultura. Não apoiaria um Estado que me ditasse que tipo de comidas eu podia ou não comer, mesmo tendo como fundamento as mais recentes descobertas ao nível da nutrição. Não apoiaria um Estado que me dissesse a que horas o meu filho se deve deitar, com que brinquedos deve brincar ou que roupa deveria vestir. Não apoiaria um Estado que me impedisse de ver filmes pró-fascistas, que me impedisse de me manifestar por mais radical que fosse a minha posição, que me impedisse de ler livros de movimentos totalitários, que me impedisse de criar o meu próprio jornal ou que monopolizasse qualquer meio de comunicação.

O Estado não pode nunca ser esse ser estranho que me vai ensinar a viver a vida. Mas tem de ser sempre aquela entidade que me permite vivê-la, independentemente da minha condição socioeconómica à nascença.
E seja qual for o Estado que tivermos, ele será sempre o conjunto de todos nós.


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Intolerância Moderada


  “Assim, cada um destes críticos indulgentes espera levar água ao seu moinho: regulação dos mercados financeiros, limitação dos prémios dos directores, abolição dos “paraísos fisceis”, medidas de redistribuiçãoo, e sobretudo um “capitalismo verde” como motor de um novo regime de acumulaçãoo e gerador de empregos. O caso está arrumado: a crise constitui uma oportunidade para uma melhoria no capitalismo, não para uma ruptura com ele.”

  “Mais do que um grande clash, podemos esperar uma espiral descendente até ao infinito, um abatimento perpétuo que nos dará tempo para nos habituarmos a ele.”

Anselm Jappe, em “Sobre a Balsa da Medusa”

  A questão da participação no governo está a criar uma cisão na esquerda. É uma questão pertinente, pois uma escolha ou outra têm resultados opostos se não contraditórios. Pelo menos nas circunstancias em que nos encontramos hoje.
  O Ricardo falou no perigo do sectarismo da esquerda, que seria a austeridade eterna, o domínio político da direita neoliberal e a descredibilização da democracia e da utilidade dos partidos. O sectarismo dessa esquerda 'radical' que se recusa à participação no governo. A outra esquerda, 'moderada', que deseja uma participação conjunta no governo, impensável sem a coligação com o PS, não é sectária, mas intolerante com a sua 'irmã radical'.
  Entende-se que, quando pela primeira vez nos últimos anos a esquerda (mais alargada) se tenta reunir e unir esforços, se fique frustrado por um dos sectores não estar interessado neste projecto. Mas é necessário compreender que as razões porque esse sector não o faz são válidas.
  Falo agora do perigo da coligação alargada de esquerda. Para o fazer basta fazer algumas alterções às ideias do Ricardo. O perigo seria: capitalismo eterno, o domínio político do centrão conciliador, a credibilização desta democracia e destes partidos.
  Porque a coligação não vai fazer qualquer ruptura com o sistema actual nem desafiar as instituições de Bruxelas, pelo menos não seriamente. A democracia está descredibilizada e com fundamento, porque de democracia pouco resta (bastam os números da abstenção para sustentar esta afirmação) e uma coligação deste género não é muito diferente da coligação presente. Não deixa de se enquadrar na rotatividade bipartidária PS/PSD, assim com a coligação com o CDS não quebra o cíclo do centrão.
  Pior é que a esquerda se continue a queixar de Bruxelas e da Merkel, quando esses são apenas  sintomas tardios de uma patologia conhecida. 
  "Seria muito mais giro e fácil mudar tudo duma vez só, se não vivêssemos na situação actual". Giro seria se nos anos das vacas gordas alguém tentasse dizer que o sistema capitalista não estava a funcionar bem e que deviamos abdicar dele. Se não se faz uma mudança radical (de raiz) em época de insatisfação e consciência das falhas estruturais do sistema, então quando se faz? Nunca, talvez. Mas então a mesma resposta serve para a pergunta 'quando acabará o capitalismo'?
  Admito que não querer alinhar num governo com o PS seja razoável, porque fazê-lo pode ser só legitimar o actual estado de coisas. Alinhar com um governo que pouco fará de ruptura. Não censuro quem não o quer fazer, da mesma forma que não censuro quem o tentará. Apenas porque admito a possibilidade de haver várias respostas a um mesmo problema. Espero que um governo de coligação alargada de esquerda ganhe as eleições, porque tenho a esperança de que será menos mau que o governo actual, mas não vejo nele nenhuma espécie de saída. Apenas uma espécie de bandaid numa ferida muito profunda.
  Marginalizar e rotular pejorativamente de radicais quem não o deseja só dificulta uma mudança séria. Se passados tantos anos de 1848 ainda não se percebeu que 'radicalismos' só nos levam ao fracasso, passados tantos anos desde 1789 já deviamos ter entendido que reformistas nos levam ao fracasso - hoje.
  

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Sectarismo na esquerda

Assusta-me o sectarismo. O pensamento dogmático. Vemo-lo nos neoliberais cegos por pressupostos e de mão dada com os grandes grupos financeiros mas também o vemos na esquerda. Sobre os primeiros já muito pensei, conversei e ataquei. Sobre os segundos começo agora a perceber o seu perigo. E este perigo atinge todos os cidadãos, não atinge só os próprios e os amigos.

Que perigo é este? O perigo da austeridade eterna e do domínio absoluto da política portuguesa pela direita neoliberal. O perigo da descredibilização da democracia e da utilidade dos partidos. E porque é que digo que o sectarismo nos leva a esse perigo? Porque uma esquerda presa a dogmas, a ideais e pressupostos (tão rígidos e falsos como os dos amigos de Friedman), sem coragem para arriscar a tomada do poder e a participação em governos de coligação, é a verdadeira morte do artista.

Diagnósticos? Já muitos foram feitos e todos sabemos a situação do país. Já muita gente se apercebeu do que se está a passar, dos constrangimentos que nos estão a ser impostos. Mas ninguém fala em soluções. Ninguém consegue apresentar soluções realistas e aplicáveis. Se eu queria que o mundo fosse diferente? Claro que queria, mas é a participar no governo que se dá os primeiros passos em direção a uma sociedade diferente. Seria muito mais giro e fácil mudar tudo duma vez só, se não vivêssemos na situação atual.

É uma pena que tantas esquerdas não compreendam o papel fulcral que têm a desempenhar no poder para realmente se sentir uma mudança positiva na nossa vida política. É uma pena que fiquem presos ao seu dogmatismo e arrogância de iluminados incompreendidos. De sonhadores que se recusam a arregaçar as mangas e trabalhar com as ferramentas que nos dão. E a pena que tenho não é deles. Daqui a uns anos é bem possível que venham a mudar de posição (dependendo do que os órgãos da direção lhes disserem para fazer). Tenho é pena dos portugueses que anseiam por um governo que seja capaz de mudar a vida no campo do que é possível e do que é viável, tendo em conta a nossa perda de soberania e as possíveis consequências de atos mais corajosos e dignos frente aos burocratas de Bruxelas.


É uma pena que passados tantos anos de 1848, ainda não se consiga compreender que os radicalismos só nos levam ao fracasso.